Café Alexandrino - O lado aromático da vida

segunda-feira, 13 de março de 2006

A chuva e a saudade

Poesia

A chuva que cai lá fora
E jorra pela rua sem demora
Traz para a terra a umidade
E para mim o frescor.

A saudade que sinto agora
Justifica-se nesta hora
Por estar noutra cidade
O meu verdadeiro amor.

Ele no sul e eu no norte!
Por isso, nesta chuva vou me jogar
E deixar a saudade a chuva levar...

Quem sabe eu tenha sorte!
Então, quando a chuva se for,
Pousarei nos braços do meu amor.

Ismael Alexandrino

Ao som de 'Those Sweet Words' - Norah Jones
Degustando Água de Côco
Imagem: 'Janela de Casa' - Ismael Alexandrino



sexta-feira, 10 de março de 2006

Se o Sol explodisse

Ensaio

Se o Sol Explodisse... Imagine, meu amor, se ele se arrebentasse todo... milhões, zilhões de luzes pequenas, riscos tortuosos. Seria lindo , querida, seria bárbaro.

Um espetáculo sem ingressos, só para nós dois. Olha só quanto fogo ! que brilho ! Repare nas águas do lagos e veja os raios subindo, olhe para o sideral, como desaba em tochas, em flechas incendiadas.

Incandecido está todo o horizonte, brasas voando por todos os lados desenhando milhões de rosas-dos-ventos. Toda a terra se abala, todo o universo se comove. Até a lua cede e derrama sua prata sobre nós, voce e eu.

Este momento de ouro e prata seria nosso e eterno. Um casamento excêntrico de céu em chamas e samambaias por tapetes, avencas e bromélias por paredes, pendidas dos ipês e paus do charco. A sinfonia norturna em profundo silêncio, entregue ao delírio do descomunal incêndio.

E tu, linda, toda formosa, emprestando do teu brilho àquela fogueira celeste, me impondo um sorriso grande, me fazendo brilhar tambem.

Quero acreditar que os carvões e cinzas nunca estarão nesta quimera, mesmo porque tu ainda nem chegaste para vivermos este espetáculo.

Sílvio Sebastião

Ao som de 'Se' - Djavan
Degustando Leite Condensado com Morango
Imagem: 'Fios de luz' - Cláudia Pudell Rossi

quarta-feira, 8 de março de 2006

Homenagem às mulheres

Discurso

Neste dia 08 de março, Dia Internacional da Mulher, parabenizo todas as mulheres, de todas as nações, culturas, raças e credos, reconhecendo a importância e o valor que cada uma -- indivualmente -- tem na nossa vida e na sociedade.

A sete delas, porém, importo-me em citá-las:

Divina Alexandrino, minha mãe,
todo meu reconhecimento pela mulher fantástica que é, exercendo a maternidade de forma ímpar e inigualável, que vai muito além de qualquer concepção terrena de amor...,obrigado por uma vida de amor a mim dedicada, pelo apoio incondicional, pela alegria e privilégio insondável e inegociável de ser o seu filho. Obrigado por me permitir a vida a partir do seu ventre aconchegante. Amo você, minha mamãe.

Ila Graebin, meu amor,
todo meu contentamento pela mulher companheira, cúmplice, carinhosa, amiga verdadeira e leal, amorosa...,obrigado por dar cor à minha vida e sonhar junto comigo sempre de forma encantada, fazendo-me querer viver ao seu lado para o resto da vida. Amo você, minha princesinha.

Gilsa Maria, minha irmã mais velha,
toda a minha admiração pelo exemplo de mulher forte, de garra, determinação e altruísmo quando se faz realmente necessário..., obrigado pelo amor e cuidado demosntrado à sua forma desde sempre. Você é um pedacinho de mim. Amo você, minha maninha.

Gisele Alexandrino, minha irmã mais nova,
toda minha admiração por ser tão somente o que é, pela sua meiguice, percebida em cada gesto e registrada em cada foto..., obrigado por ser assim, tão você, carinhosa, simples, meu xodó. Você também é um pedacinho de mim. Amo você, minha maninha.

Eunice Graebin, minha sogra,
todo o meu respeito e carinho pela mãe da mulher da minha vida que tem sido, pelo coração mole e generoso..., obrigado pela amizade, pelo zelo, pela compreensão mesmo nas divergências . Amo você, minha sogra.

Danyella Santana, minha cunhada,
todo meu carinho, gratidão e amizade durante todos estes anos de convivência, e que eles se multipliquem....obrigado por proporcionar-nos momentos tão felizes com sua presença marcante em nossa família. Você é como uma irmã. Amo você, cunhadinha.

Iza Graebin, minha cunhada,
todo meu carinho, gratidão e amizade nesse tempo compartilhado, e que eles se eternizem...obrigado pela sua alegria de viver, por ter o dom de nos descontrair sempre e por cuidar de quem eu amo. Você também é como uma irmã. Amo você, cunhadinha.

A todas vocês, dedico todo o meu carinho, amor, ternura, zelo, respeito, admiração, amizade e lealdade.
Que continuem sendo exemplo de mulheres que, reconhecidamente, são fundamentais na nossa existência.

Ismael Alexandrino

Ao som de 'Mulheres de Atenas' - Chico Buarque
Degustando Sonho de Valsa
Imagem: 'Miolo' - Amix

segunda-feira, 6 de março de 2006

Eu-rio

Crônica

Nem sempre tudo acontece como nos agrada. Aliás, com freqüência, rotineiramente, algo nos contraria. Há ações, há fatos, que, se pudéssemos, com certeza impediríamos sua realização. Há pessoas, que, se pudéssemos, também não deixaríamos ir, e outras tantas acolheríamos para sempre. Há sentimentos, que, por vezes, tenta nos rondar e se fôssemos capazes sempre, os mandaríamos para bem longe. Mas mesmo estes, às vezes, também nos acomete.

Encaro essa tentativa de injúria, essa fuga do nosso controle, essa contrariedade da nossa vontade como algo normal, passageiro, como um rio. Sim, um rio.

Assim como nós, o rio não se contém nas entranhas terrestres e então rebenta. A esse parto não chamam de "luz", mas nascente. Geralmente a nascente tem águas bem cristalinas. Ainda bem novinho, o rio já dá seus primeiros passos, faz suas primeiras e sinuosas curvas. Vai nutrindo-se aos poucos aqui e acolá. Come uma fruta, uma folha, engole uma raiz, um bichinho, bebe de outras águas, e assim vai se sustentando e crescendo. Talvez ele tenha uma vantagem em relação aos humanos: quando novo, não costuma engasgar. Aqui excluo as regiões muito secas, onde há rios intermitentes, que secam em certos períodos do ano.

Daí, bem alimentado, forte, ele segue seu caminho. Vira para a direita, sobe o nível – sim, o rio sobe o nível! Às vezes, corre para cima –, vira para esquerda, dá uma longa descida, depois mais uma bem rápida....Encontra alguns galhos e os leva consigo sabe Deus até aonde. Não raro, os rios encontram pedras pelo caminho, mas não as chutam e muito menos as xingam, ou lhes mostram gestos obscenos. Eles se compadecem, rodeiam as pedras ou as pulam e, quase sempre, até as lavam deixando-as belas. Às vezes o rio pára para descansar numa sombra. Ali ele enrola, enrola, pensa em voltar, mas segue em frente. Caudaloso e com postura elegante. O rio se renova. Tudo isso, segundo a sua vontade. Aí um detalhe: há vontade!

Contudo, algumas vezes vêm as chuvas e o faz derramar de tão cheio. Ele fica nervoso, enfurecido, perde o controle e não se preocupa com o que está à frente. Passa por cima de tudo, demolindo. Quando está assim, é melhor nem chegar perto. Outras vezes, chega um senhor de chapéu em cima de um trator e com petulância empurra terra em seu leito, joga terra em seus olhos, o empurra mais para lá, invade seu espaço. A todas essas coisas, porém, ele – o rio – não pode impedir. Mas o rio aprende a lidar com elas. Quanto às chuvas, tão logo elas passam, ele volta a se acalmar arrependido dos estragos que causou deseducadamente. Quanto à soberba humana em invadir o seu espaço, depredá-lo, ele – o rio – humildemente dá o seu jeitinho. Propõe um convívio mais superficial, ou procura outro caminho. Muitas vezes passa fome e até sede, mas sempre dá um jeito. Quão sábio são os rios!

Talvez se fôssemos mais rio e menos represa, melhoraríamos nossa caminhada e convívio social. As represas, os lagos, as lagoas – águas paradas que são – recebem tudo passivamente, águas boas e ruins, limpas e sujas. Recebem pedregulhos e os sedimentam, recebem sujeiras e, absorvendo-as, guardam-nas para si. Nada fazem para se renovarem. Contentam-se com uma pífia e lenta vaporização. Na verdade, geralmente é onde o rio morre, sua foz. Tornemos nosso dia-a-dia semelhante a um rio. E nessa congruência, atentemo-nos para a constante dinâmica em busca do equilíbrio.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Recomeçar' - Aline Barros
Degustando Chocolate ao Leite
Imagem: 'Cataratas' - Adri Furtado

sábado, 4 de março de 2006

Dona Cleuza

Conto

Estava exausto. A noite chuvosa reduziu o número de pacientes. Mas um plantão de emergência do coração, é sempre um plantão muito cheio de emoção. Gritos de desespero, de dor, de desamor. Sorrisos assustados, de alívio, de gratidão. Agito total, parada súbita. Silêncio constrangedor.

A madrugada chegou e tentei achar descanso num sofá puído. Fazia um frio artificial, fervilhavam algumas reflexões. O pensamento acelerava na medida em que a freqüência do apito no aparelho da sala ao lado diminuía. Em poucos minutos, mais um apito de vida calaria a voz. Talvez antes que o sol nascesse.

Como temia, antes do dia nascer, pude fitar os olhos opacos e sem reação de dona Cleuza.

Fui para casa tomar um banho. Debaixo do chuveiro eu não pensava em nada muito filosófico, apenas sentia aquelas gotas frias lavarem minha alma e refrigerarem meu corpo.
Limpo, percebi que meu estômago estava vazio a mais de doze horas. Desci com o intuito de comer algo no calçadão da praia. Nada muito pesado. Nada
que me saciasse por completo. A vida precisava sentir um gosto de querer mais.

Ao aproximar-me da faixa de pedestres, pude ouvir uma voz que ressoava
muitos anos vividos. Talvez, quase um século. "Você vai atravessar a rua?" Vou sim!, disse-lhe sorrindo. "Posso atravessar com você? Sinto-me insegura." Claro!, sorri novamente. Esperamos mais uns sessenta segundos até que o sinal esverdeasse nosso caminho.

Já na calçada, do outro lado da avenida, aquela senhora de feição suave agradeceu-me e me desejou bom dia. Bom dia! Qual o nome da senhora? "Cleuza. Mas pode me chamar de Dona Cleuza.", esboçando-me um sorriso. (...) Sim! Tenha um dia tranqüilo, Dona Cleuza!

E desejei realmente que a Dona Cleuza tivesse um dia bem mais tranqüilo que a noite de dona Cleuza naquele hospital.

Ismael Alexandrino

Ao som de 'Como nossos pais' - Elis Regina
Degustando Chá de Hortelã com Pão Integral
Imagem: 'Auto-retrato' - Marcus Davis

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quinta-feira, 2 de março de 2006

Sonhar não é proibido

Crônica

Caminhar é bom por dois motivos. Em primeiro lugar, trata-se de exercício físico, um antídoto contra o sedentarismo que nos ameaça a todos nesta era de telas - tela da tevê, tela do computador. Em segundo lugar, caminhar coloca-nos em contato com a realidade das ruas, das praças, dos lugares públicos. Uma realidade que, convenhamos, nem sempre é agradável, mas que não podemos nos dar ao luxo de ignorar.

Caminhando, cada um tem seus trajetos preferidos. O meu leva-me pela Protásio Alves e Osvaldo Aranha, o Bom Fim de minha infância, até o parque Farroupilha, onde sempre espero encontrar o casal Ostermann. Mas há um outro casal que me chama a atenção e que deve ser bem conhecido daqueles que andam pela Protásio Alves.

Eles são os típicos sem-teto, uma mulher e um homem já de certa idade, esfarrapados e maltratados pela vida. Carregam suas poucas coisas no clássico carrinho de supermercado que, aliás, é o único ponto comum entre a sociedade de consumo e a marginália. Ficam sentados, conversam, brigam entre si, pedem esmolas. Mas, no domingo passado, eu os vi entregues a uma atividade completamente diferente.

Os dois estavam diante da vitrine de uma loja de luminárias e conversavam sobre o que estava ali exposto, abajures, lustres. Eu preferia aquele ali, dizia o homem, apontando. Nada disso, retrucava a mulher com desprezo, é enfeitadinho demais, por mim eu ficava com aquele lá do fundo.

Nesse momento, eu me dei conta do que eles estavam fazendo. Estavam decorando, em imaginação, a casa que nunca tiveram e que provavelmente nunca terão. Mas a esta tarefa impossível eles se entregavam com dedicação, com prazer, com paixão mesmo.

Sonhar é uma coisa que está ao alcance de todos, mesmo de um casal de sem-tetos vagando pela avenida de uma grande cidade. Por um momento as pobres criaturas tinham saído da rua; por um momento, estavam morando em um apartamento confortável, cheio de lustres e abajures (e nem sequer se preocupavam com a conta da luz). Por um momento, estavam sentindo-se pessoas da classe média, aquelas mesmas pessoas que, num domingo de manhã, caminham pela Protásio Alves.

Sonhar faz bem. Aliás, é por isso que sentamos diante da tela de um cinema, ou diante da tevê vendo a novela. É por isso que ficamos diante da vitrine de uma loja, seja esta de eletrodomésticos, de roupas, de calçados ou de luminárias. Ah, sim: e é por isso, também, que existe ficção, uma espécie de abajur que ilumina alguns momentos de nossa vida.

Moacyr Scliar

Ao som de 'Pra não dizer que não falei das flores' - Geraldo Vandré
Degustando Café com Chocolate
Imagem:'óleo sobre tela' - Miguel Carlos Labra

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Estação saudade

Poesia

Letra sem música
Sonho torpe
Céu marrom
Aurora sem luz
Luz sem calor
Calor solitário
Solidão amarga
Amargura insistente
Insistência em amar
Amar quem me esquece
Esquecer a quem amo
Amo sozinho
Sozinho e sem calor
Calor amargo da solidão.

Sílvio Sebastião

Ao som de 'You're in my heart' - Rod Stewart
Degustando Suco de Uva
Imagem: Joel Calheiros
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