Café Alexandrino - O lado aromático da vida

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Polidez

Poesia


Falta-lhe o verso
Nesses lábios
Arredios.

Falta-lhe a canção
Nessa voz
Monotônica.

Pois verso e canção
Detêm toda inflexão
Que carece a linguagem
Adequada para falar
Aos moucos (porém loucos!)
Ouvidos do meu coração.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Samba de uma nota só' - Tom Jobim
Degustando Leite em Pó
Imagem:'Sax' - Fernando Braun

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Fruta de verão

Poesia

Quanta vida se perdeu
Neste lapso de tempo
Que separa nós dois!

Dizem os cartógrafos
Que é a distância que
Separa dois entes pontuais.

Ouso deles todos discordar
Simplesmente por acreditar
Que a distância é o que
Menos nos separa.

Este hiato entre mim e ti
É meramente temporal:
Vivemos tempos diferentes,
Ainda que polinizados
Gêmeos de alma.

És gostosa maçã, fruta temporã
Viçosa, de véspera, no verão.
E eu, talvez até mais doce,
Porém, mais comum, previsível,
Amadureço devagarzinho
E só frutifico no outono.

Quando eu (amadurecido)
Chegar a dar água na boca,
Já terás sido (precocemente)
Apanhada com a mão
E, vorazmente, degustada
Por outra faminta boca.

Jamais frutificaremos
Numa mesma estação!
Não pela distância,
Mas pelo tempo:

Sem pressa,
Sou de outono;
Temporã,
És de verão.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Pra ser sincero' - Engenheiros do Hawaí
Degustando Tinto com Maçã
Imagem:'Doce Pecado' - P.Bernadelli

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Crescer se aprende

Crônica


Alguns peixes têm uma característica extremamente interessante: são capazes de crescer de acordo com o tamanho do ambiente em que vivem. Assim, se estão num pequeno aquário, medem alguns poucos centímetros, enquanto que, se estiverem numa represa ou num lago, podem medir duas, três, quatro vezes mais.

Seguindo este mesmo comportamento, algumas árvores, quando plantadas em pequenos vasos, não crescem muito, ficam limitadas no tamanho. Ao passo que aquelas plantadas onde o espaço e a quantidade de terra são abundantes, tornam-se robustas e com frondosas copas verdejantes.

O ser humano, como parte da natureza, também tende a crescer de acordo com o ambiente em que vive. Não me refiro, tão somente, ao crescimento físico, mas sim às peculiaridades que o diferencia de todos os outros seres viventes. Por aí perpassa o desenvolvimento intelectual, emocional e espiritual.

Os peixes, bem como as árvores, são obrigados a aceitarem as limitações de seus próprios mundos. E se assim não fosse, não resistiriam. Ou seja, o fazem para o próprio bem deles. Ao homem, no entanto, foi dada uma grande liberdade de estabelecer a fronteira dos seus sonhos e os limites do seu mundo.

Desta forma, se somos um peixe maior que o aquário em que fomos criados ou se, porventura, somos uma árvore maior que o vaso em que fomos plantados, em vez de limitarmos nosso crescimento e nos adaptarmos a eles, deveríamos repensar nosso estado. Ainda que a adaptação inicial fosse melindrosa, desconfortável e até mesmo dolorosa, talvez fosse interessante buscarmos o oceano ou, quem sabe, uma pastagem verdinha do tamanho do horizonte.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'É preciso saber viver' - Titãs
Degustando Suco de Uva
Imagem:'Campos de Canola' - Joice

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Eu sei

Música

Eu sei, tudo pode acontecer
Eu sei, nosso amor não vai morrer
Vou pedir aos céus você aqui comigo
Vou jogar no mar flores pra te encontrar

Não sei porque você disse adeus
Guardei o beijo que você me deu
Vou pedir aos céus você aqui comigo
Vou jogar no mar flores pra te encontrar

You say good-bye, and I say hello
You say good-bye, and I say hello

Serginho Moah e Fernando Pezão


Ao som de 'Eu sei' - Papas da língua
Degustando Chá de Erva Doce
Imagem:'Porteira' - Dario Trachta

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Finitude

Poesia


Há vezes
que a vida acaba
pela falta
de um suspiro
profundo;

Às vezes,
num profundo
suspiro.

Ismael Alexandrino



Ao som de 'O que é, o que é' - Gonzaguinha
Degustando Frapê de Pêssego
Imagem: 'Fim de Tarde' - Sandra Novis

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

A Pequenina

Poesia

Estacionou-se um sorriso
Infantil
Calando-se um grito
Vital.

No quarto frio,
Fios, tubos, corre-corre,
Apertos no peito,
Adrenalina
Sopro artificial
E nenhum sinal.

Apertos nos peitos presentes
Adrenalina
Sopro artificial
E nenhum sinal.

Apertos, apertos,
Nós na garganta
Adrenalina
Sopros, sopros
Apertos no peito
Gotas de suor
Na busca de um sinal.

Apertos nos peitos presentes,
Lágrimas nos olhos ausentes,
Suspiros existenciais...

...sobre aquele corpinho
De sete perfeitos
Meses de vida
– agora sem vida – ,
Chora mãe e médico
A falta de um sorriso infantil,
Chora médico e mãe
A falta de sinais vitais.

Ismael Alexandrino

Poema dedicado à Maria Luiza, 7 meses, que faleceu hoje (25-01-07) em meus braços.

Ao som de 'Tears in Heaven' - Eric Clapton
Degustando boca amarga e lágrimas salgadas
Imagem: 'Mãe e Filha' - Murilo Faria

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Serenata

Poesia

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silêncio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

Cecília Meireles


Ao som de 'Words' - Bee Gees
Degustando Chá de Maça com Canela
Imagem: 'Serenata ao luar' - Rui Bonito