Café Alexandrino - O lado aromático da vida

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Quero viver

Crônica


Quero viver sem as exigências religiosas que não consideram que sou pó. Não aceito mais que continuem demonizando minhas inadequações; não admito que tentem me oprimir com culpas legalistas. Estou, a duras penas, me construindo, portanto, não me submeterei a pedradas. Tento, Deus sabe como, ser sensível à voz do Nazareno e não tolero gritos demagógicos de falsos santos, que procuram mostrar ao mundo o que nunca foram.

Quero viver sem as cobranças impiedosas de quem só deseja me usar. Não, não pemitirei amizades pontuais e interesseiras. Decidi não mais conviver com colegas que cobram a correção dogmática de seus pares. Quero ser livre para pensar e não escandalizar, sonhar e não constranger, rir e não decepcionar, chorar e não entristecer. Para mim, chega de ambientes ajeitadinhos. Não quero ser hipócrita para só mostrar minha vida ou família através de fotografias, em que todos posam sorrindo.

Quero viver sem discursos idealizados. Não quero papagaiar conceitos e verdades tirados de livros teológicos, mas que não têm liga nenhuma com o drama humano. Chega de sermões recheados de jargões, que impressionam pela euforia, mas não significam coisa nenhuma na hora em que uma família tem que esperar no corredor da Unidade de Tratamento Intensivo ou retorna do cemitério. Recuso continuar promovendo ambientes religiosos emocionantes, restritos a momentos esporádicos. Não quero voltar para casa em paz e, cinicamente, abandonar os que me ouviram à dureza da vida.

Quero viver sem a obrigatoriedade de manter-me sempre coerente, grave, e acima de tudo, correto em minhas inquietações existenciais, filosóficas ou espirituais. Não quero continuar me conformando às expectativas dos fariseus de plantão. Não temerei os cenhos franzidos dos doutores da lei, que conhecem a raiz grega de cada palavra da Bíblia, mas são indiferentes ao sofrimento das multidões; prefiro caminhar ao lado de pecadores aos ambientes asfixiantes dos fundamentalistas, onde as opiniões são tão fortes que não se toleram contradições.

Quero viver sem medo de rótulos. Quero carregar a memória do meu pai, que foi preso político, mas nunca cedeu em suas convicções, mesmo sob as ameaças da ditadura militar. Ele não escondeu seu socialismo quando isso significava receber o estigma de subversivo e terrorista.

Quero viver parecido com Jesus, meu grande herói. Ele foi livre, descompromissado com as instituições e amigo de marginalizados. Quero seguir seus passos ainda que incoerente, claudicante, perplexo ou apavorado.

Sei que essa aventura me consumirá pelo resto de minha vida, mas é o que quero.

Ricardo Gondim


Ao som de 'O que é o que é' - Gonzaguinha
Degustando Kiwi com Leite Condensado
Imagem:'Pulo sincronizado' - Carlos Henrique

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Tempo que foge

Crônica


Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo.

Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos. Não gosto de assembléias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de "confrontação", onde "tiramos fatos à limpo". Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário do coral.

Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou sobre as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porque gosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Minha resposta será curta e delicada: - Gosto, e ponto final! Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: "As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos". Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.

Já não tenho tempo para ficar dando explicação aos medianos se estou ou não perdendo a fé, porque admiro a poesia do Chico Buarque e do Vinicius de Moraes; a voz da Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, Thomas Mann, Ernest Hemingway e José Lins do Rego.

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a "última hora"; não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com Deus.

Caminhar perto dessas pessoas nunca será perda de tempo.

Ricardo Gondim


Ao som de 'Sou feliz' - Horatio Gates Spafford
Degustando Chá de Camomila
Imagem:'Nuança da paz' - Anderson Alarcão

Receita de Mulher

Poesia


As muito feias que me perdoem,
Mas beleza é fundamental.
É preciso que haja qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República [Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da [aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-e dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) e também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem [saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de [coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima [penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca [inferior
A 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1° grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer [beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ele não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

Vinícius de Moraes


Ao som de 'Garota de Ipanema' - Tom Jobim
Degustando Chá de Menta
Imagem:'Living Statue' - João Freitas

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

GLOBO proibe documentário no Brasil

Provocações - Documentário

O Brasil, desde seu nascimento para o mundo ocidental, tem sofrido seguidas ameaças, sejam elas de fora, sejam elas de dentro. Mas depois dos Portugueses voltarem para o Velho Mundo, uma rede sofisticada de exploração vem sendo mantida. E com a tecnologia do Século XX maravilha, tudo ficou mais fácil. Agora pode-se difundir a inércia política e o ócio da mente -- algo já estereotipado nos silvículas do passado -- através da tecnologia maravilha. Maravilha de país, sem nada para discutir, maravilha de moral, maravilha de venda. Minha mãe eu vendo por R$1,00. O país e minha alma estão em promoção, faço por R$0,50. Agora o que é mais caro é o meu voto. Um saco de cimento você já leva.

Ah, pede para o Jabor comentar esse documentário no fantástico. Gostaria de ouvir o lado deles também, afinal, são realmente dois lados: o do grande Império do Século XIX e o deles.

André Santana

Desligue a rádio no menu da coluna à direita e assista ao documentário abaixo feito sobre a Rede Globo que foi proibido de passar no Brasil.


Caso tenha qualquer tipo de problema com o player acima, clique aqui para assistí-lo.


Ao som de 'Luis Inácio Falou' - Paralamas do Sucesso
Degustando Chá de Maçã e Canela com Pão de Queijo
Imagem:'Documentário sobre a Rede Globo

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Tapa

Poesia

Com um sorriso amarelo e encardido
E com um peculiar (unilateral!) rubor facial,
Abano a poeira nas nádegas da minha calça
Jurando nunca mais olhar-te face a face.

Pego meu pingente dourado no chão,
Jogo-o no meio do matinho perto
Para que o santinho não testemunhe
O que acabara de me fazer.

Acabaste com um sorriso,
Intentaste contra minha moral;
Pior: acabaste com uma esperança!

Não haverá descaminho futuro
Que me faça retroceder
A ponto de me aproximar
A menos de uma légua de ti.

Engolirás daqui para frente lágrimas amargas
Que rolarão para dentro do teu profundo vazio,
O vazio de não mais me ver passar em tua porta.

Tiveste-me a um palmo dos teus lábios;
Tiveste-me a um palmo do amor eterno.

Mas não foste suficientemente sábia,
Não foste delicada, merecedora de mim.
De ímpeto, deferiste-me um golpe na face
Que me jogou na poeira do caminho...
Caminho longe do teu.

Tua pena será cumprida dia após dia
Com toda liberdade que te verás presa.
Nunca mais terás meus pedidos singelos,
Nunca mais tentarei dar-te um beijo.

Vai!...
Vai viver com tua insanidade,
Vai perecer em teu leito de amargura,
Vai morrer fria e desamada,
Vai!...

Deus me livre de ti, mulher!

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Encontros e Despedidas' - Maria Rita
Degustando Chá Preto
Imagem:'O andarilho' - Thiago Fernandes Barbosa

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Polidez

Poesia


Falta-lhe o verso
Nesses lábios
Arredios.

Falta-lhe a canção
Nessa voz
Monotônica.

Pois verso e canção
Detêm toda inflexão
Que carece a linguagem
Adequada para falar
Aos moucos (porém loucos!)
Ouvidos do meu coração.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Samba de uma nota só' - Tom Jobim
Degustando Leite em Pó
Imagem:'Sax' - Fernando Braun

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Fruta de verão

Poesia

Quanta vida se perdeu
Neste lapso de tempo
Que separa nós dois!

Dizem os cartógrafos
Que é a distância que
Separa dois entes pontuais.

Ouso deles todos discordar
Simplesmente por acreditar
Que a distância é o que
Menos nos separa.

Este hiato entre mim e ti
É meramente temporal:
Vivemos tempos diferentes,
Ainda que polinizados
Gêmeos de alma.

És gostosa maçã, fruta temporã
Viçosa, de véspera, no verão.
E eu, talvez até mais doce,
Porém, mais comum, previsível,
Amadureço devagarzinho
E só frutifico no outono.

Quando eu (amadurecido)
Chegar a dar água na boca,
Já terás sido (precocemente)
Apanhada com a mão
E, vorazmente, degustada
Por outra faminta boca.

Jamais frutificaremos
Numa mesma estação!
Não pela distância,
Mas pelo tempo:

Sem pressa,
Sou de outono;
Temporã,
És de verão.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Pra ser sincero' - Engenheiros do Hawaí
Degustando Tinto com Maçã
Imagem:'Doce Pecado' - P.Bernadelli