Homenagem Póstuma
Em 05 de novembro de 1938, nascia um dos maiores homens que este país já conheceu.
Tive o privilégio de ser seu discípulo, seu aluno de medicina, mesmo que brevemente, quando este ministrava – brilhantemente – seu conceituado curso de "Eletrocardiograma" no Rio de Janeiro.
Há muito, eu já o admirava como professor universitário, político exemplo de honestidade, e formador de opinião. Com o convívio pessoal, passei, também, a admirá-lo como pessoa, como ser humano, que se preocupa com o outro, com o seu irmão. Muitos pensavam, talvez pelo tom de voz enérgico e a forma enfática e expressiva dele falar, que ele fosse agressivo ou autoritário. Mas, ao contrário, ele era extremamente pacífico, educado, generoso, e gentil.
Ele amava o conhecimento, amava o Brasil e amava os brasileiros. Angustiava-se com a miséria e com a condição subumana de vida dos seus compatriotas, e dos indivíduos que pereciam por fome, ou por falta de cuidado digno. Tantas vezes o vi esbravejar contra essa condição deplorável de vida. Ele sentia a dor do outro. Condoia-se.
Portador de um caráter ilibado, de uma ética inquestionável, e de uma moral irretocável, procurou dar o melhor de si naquilo que se meteu a fazer, naquilo a que se dedicou. Com formação em medicina, física, matemática e militar, e com estudos na área de filosofia, antropologia, robótica, lógica, geopolítica e ciências sociais, se mostrou como um pensador nato. Agraciado com uma mente brilhante, alegrava-se em compartilhar aquilo que aprendeu com os outros. Em 1998, quando, numa entrevista, lhe informaram que grande parte da população o via como "inteligente e brilhante", comentou: "Não é um atributo pelo qual eu tenha mérito nenhum. Foi Deus quem me deu. É como beleza física. Ninguém tem mérito por ser bonito".
Mesmo depois de acometido com uma doença grave e profundamente debilitado, procurava exercer as suas atividades com diligência e otimismo, então como político eleito para a câmara federal.
Militou na política, procurando sempre ser coerente com sua fundamentação ideológica. Inúmeras vezes foi mal-interpretado. Outras, até ridicularizado. Sobretudo, por não fazer o tipo populista ao expor suas opiniões, mesmo aquelas mais polêmicas. Era autêntico, doía a quem doer, e não negociava suas convicções, não traía a sua consciência.
O Brasil, sem dúvida, perde um grande homem, um estandarte, um exemplo de garra – que saiu do Acre aos 9 anos de idade, órfão, para morar no Rio de Janeiro, estudar e sustentar sua família. O país perde um exemplo de determinação, de disciplina, de altruísmo, e de tantos outros adjetivos de qualificação positiva. Eu, no entanto, perco um mestre, um colega, um referencial... Eu perco um amigo.
Fica, para a família Ferreira Carneiro, meu gesto de apoio, de compaixão, de condolências.
Fica, também, meu choro contido, de quem sente profundamente uma perda irreparável.
Fica, sobretudo, o meu reconhecimento sincero, o meu respeito, a minha admiração, a minha homenagem àquele que, para mim, será sempre o imortal Enéas Carneiro.
Em luto,
Ismael Alexandrino
Degustando Lágrimas
Ao som de 'What a wonderful world' - Louis Armstrong
Imagem:'Ismael Alexandrino, Professor Dr. Enéas Carneiro, Drª. Roberta, Dr. Daniel Alexandrino, Dr. Wander, em julho de 2004.' - Ismael Alexandrino