Café Alexandrino - O lado aromático da vida

terça-feira, 8 de maio de 2007

Poema expresso

Poesia

Por que me pedes algo de ímpeto?
Queres me ver de alma desnuda?
Ou, simplesmente desejas
Ver-me em percalços?

Talvez tenhas razão:
Apreciar-me assim, despido,
Pode ser que tenha mais valor
Ou um pouco mais de graça.

Deveras, não sei.
Sei, somente aquilo
Que meus negros olhos
Conseguem ver.

E eles me disseram – há pouco –
Que gostaram, sobremaneira,
Do teu sorriso ligeiro
E doce.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Eu não existo sem você' - Vinícius de Moraes
Degustando Capuccino de Chocolate com Chantilly de Amarulas
Imagem:'Sorriso colorido da Bahia' - Olga Gouvéia

domingo, 6 de maio de 2007

LUTO: Ao Mestre Enéas Carneiro

Homenagem Póstuma

Em 05 de novembro de 1938, nascia um dos maiores homens que este país já conheceu.

Tive o privilégio de ser seu discípulo, seu aluno de medicina, mesmo que brevemente, quando este ministrava – brilhantemente – seu conceituado curso de "Eletrocardiograma" no Rio de Janeiro.

Há muito, eu já o admirava como professor universitário, político exemplo de honestidade, e formador de opinião. Com o convívio pessoal, passei, também, a admirá-lo como pessoa, como ser humano, que se preocupa com o outro, com o seu irmão. Muitos pensavam, talvez pelo tom de voz enérgico e a forma enfática e expressiva dele falar, que ele fosse agressivo ou autoritário. Mas, ao contrário, ele era extremamente pacífico, educado, generoso, e gentil.

Ele amava o conhecimento, amava o Brasil e amava os brasileiros. Angustiava-se com a miséria e com a condição subumana de vida dos seus compatriotas, e dos indivíduos que pereciam por fome, ou por falta de cuidado digno. Tantas vezes o vi esbravejar contra essa condição deplorável de vida. Ele sentia a dor do outro. Condoia-se.

Portador de um caráter ilibado, de uma ética inquestionável, e de uma moral irretocável, procurou dar o melhor de si naquilo que se meteu a fazer, naquilo a que se dedicou. Com formação em medicina, física, matemática e militar, e com estudos na área de filosofia, antropologia, robótica, lógica, geopolítica e ciências sociais, se mostrou como um pensador nato. Agraciado com uma mente brilhante, alegrava-se em compartilhar aquilo que aprendeu com os outros. Em 1998, quando, numa entrevista, lhe informaram que grande parte da população o via como "inteligente e brilhante"
, comentou: "Não é um atributo pelo qual eu tenha mérito nenhum. Foi Deus quem me deu. É como beleza física. Ninguém tem mérito por ser bonito".

Mesmo depois de acometido com uma doença grave e profundamente debilitado, procurava exercer as suas atividades com diligência e otimismo, então como político eleito para a câmara federal.

Militou na política, procurando sempre ser coerente com sua fundamentação ideológica. Inúmeras vezes foi mal-interpretado. Outras, até ridicularizado. Sobretudo, por não fazer o tipo populista ao expor suas opiniões, mesmo aquelas mais polêmicas. Era autêntico, doía a quem doer, e não negociava suas convicções, não traía a sua consciência.

O Brasil, sem dúvida, perde um grande homem, um estandarte, um exemplo de garra
– que saiu do Acre aos 9 anos de idade, órfão, para morar no Rio de Janeiro, estudar e sustentar sua família. O país perde um exemplo de determinação, de disciplina, de altruísmo, e de tantos outros adjetivos de qualificação positiva. Eu, no entanto, perco um mestre, um colega, um referencial... Eu perco um amigo.

Fica, para a família Ferreira Carneiro, meu gesto de apoio, de compaixão, de condolências.

Fica, também, meu choro contido, de quem sente profundamente uma perda irreparável.

Fica, sobretudo, o meu reconhecimento sincero, o meu respeito, a minha admiração, a minha homenagem àquele que, para mim, será sempre o imortal Enéas Carneiro.

Em luto,
Ismael Alexandrino


Degustando Lágrimas
Ao som de 'What a wonderful world' - Louis Armstrong
Imagem:'Ismael Alexandrino, Professor Dr. Enéas Carneiro, Drª. Roberta, Dr. Daniel Alexandrino, Dr. Wander, em julho de 2004.' - Ismael Alexandrino

A Hortênsia, essa flor

Poesia


Lembro-me do teu carinho
Feito devagarzinho

No canto do meu coração

Esquerdo.


Que doçura

Aquela candura

De sorriso que esboçaste
Direito!

Empreendeste-me cócegas n’alma

Impregnaste-me bendita calma

De que eu, há tempos, precisava.


"Exagero teu! Por que fui tão libertadora?", dirias.

Porque a fuligem ligeira da cidade
Cega-me, sufoca-me, e me aprisiona,

Remete-me – encarcerado –

A um ritmo desumano,

Mortal.


Bendita, pois, és tu entre as flores,
Hortênsia,
Que de bonito azul claro
Minha vida cinza-pálida
Pintaste.


Ismael Alexandrino



Ao som de 'Give me the reason' - Kirk Whalum

Degustando Café com Licor de Amarulas

Imagem:'Hortências azuis' - Antonio Arruda

sexta-feira, 4 de maio de 2007

(In)fidelidade a dois

Poesia

No primeiro instante de desassossego, um dos “eus” rouba-me a vez na relação.
Saio do ar. Ele me encobre por inteiro. Ignoram-me por completo no outro.
(Sobretudo quem me tem em maior intimidade )
Quão tola ela é em pensar que lhe sou íntimo!
E o meu “eu” ortônimo não lhe diz nada.

Numa segunda abordagem, já se sente íntimo a tudo que o circunda naquela casa.
Ignora todos e, sobretudo, minha companheira que me prende e me assusta.
E calo-me, assistindo a esse “eu” catártico ( libertador ).

Em sua terceira vinda, já o convido para me substituir.
Sou seu telespectador. Aceito-o com simpatia.
Estendo-lhe tapete vermelho. Ele entra em meu quarto.
Ele deita com ela. Ele a possui.
E não lhe reclamo minha ausência.

Ao retomá-la na noite posterior, ela me desdenha.
Já não mais me quer. Prefere-o a mim.
E não lhe digo nada.

Embora emudecido, meu silêncio está em conforto.
Dei-lhe o prazer de um outro, sem que lhe tirasse a fidelidade a mim.
E quantos erram em fazê-la – sua própria esposa - trair seu próprio companheiro
Por não saber ser múltiplo na pluralidade que nos torna um
aos olhos dos míopes – sobretudo de quem deita conosco.

Edvaldo Ferreira1


Ao som de 'A hora íntima' - Vinícius de Moraes
Degustando Café com Tabaco
Imagem:'Décalcoanie' - René Magritte


1Edvaldo Ferreira, meu mestre e confrade, é professor universitário catedrático em Língua Portuguesa, poeta e escritor.

Tempo

Poesia

Como sempre, tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac ,

...um minutinho já passou.
E Alice continua correndo, desta vez atrás do coelho.
e a Floresta canta, tic tac tic tac tic tac tic tac...

E sem tempo ele chora
e de seus olhos caem as horas
e os ponteiros ferem sua pele.


E o coelho fere...

tic tac tic tac ...

o próprio tempo, com sua falta de tempo...tic tac,
e Alice pára, na ponta de uma pedra gigante,
que parecia representar o próprio tempo...

pára e olha todo o seu passado...
e vê espermas espalhados
por todo o vale,
em forma de curumins...

e mais uma vez ouve-se o chôro do abandono,
tic tac tic tac tic tac...


O curumim chora...

tic tac....tic tac...tic tac...tic tac...

Pedro Paulo Rodrigues1



Ao som de 'Metáfora' - Elisa Queiroga
Degustando Água de Coco
Imagem:'A Persistência da Memória' - Salvador Dali


1Pedro Paulo Rodrigues, amazonense, reside em Recife, é artista plástico e poeta.

Fumaça sabor maçã

Poesia
fumaça sabor maçã
O vento quebrou o som
deixando apenas
o silêncio...
gotas do cálice
mel, azulado, profano,
simbiótico,
negro como a noite,
cantando gritos,
ecoando becos...
tirando mais uma
vida...
do lugar comum
aos deuses.
Calo diante
de tamanha
estupidez...
a de saborear
ameixas
ao
entardecer.
Sentado
ao cair tarde,
vendo pequenos
bicos, entoarem
um canto solitário.
O homem que toca
de fraque,
terno meio azulado,
responde ao gato,
sentado
à sua frente,
as horas que
já de tarde,
estigmatizam
a nua lua
cor de prata.
O gato se levanta...
anda...
...e senta-se novamente.
Entrega-se à luxúria,
à preguiça incontida,
num caroço de tucumã.

Pedro Paulo Rodrigues1


Ao som de 'Bandeira' - Zeca Baleiro

Degustando Chá de Canela com Maçã
Imagem:'Lua que me observas...' - Teufel


1Pedro Paulo Rodrigues, amazonense, reside em Recife, é artista plástico e poeta.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Humildade

Poesia

Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.

Cora Coralina1


Ao som de 'Cio da Terra' - Almir Sater
Degustando Pão de Queijo com Café Preto
Imagem:'Pés Descalços' - Ismael Alexandrino


1Cora Coralina, goiana, foi doceira e poetisa.