Café Alexandrino - O lado aromático da vida

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Suspiro

Poesia
A saudade me bate
A distância me isola
O amor arde.

Preciso dizer quantas vezes
Que já não te quero mais
Longe de mim?

Ismael Alexandrino


Ao som do mar
Degustando Água com Gás
Imagem: 'Contemplando o Mar Adriático' - Diego Farias

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Madrugada

Poesia

As lembranças não são vagas.
São latentes, fortes, intensas.

Ainda sinto teu perfume
Respiro-te.
Ainda vejo teus olhos
Navego-te.
Ainda sinto gosto hemático
Degusto-te.

Meu cenho franzido
Sorri levemente
Quando te penso:
Antes de ver-te,
Já te via.
Antes de cheirar-te,
Sentia-te toda.
Engravidei meus pensamentos
Fecundados na última hora.

E o tempo – fugidio –
Sempre corre
Deixando-me à pé
E sozinho.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'The Blower's Daughter' - Damien Rice
Degustando Crepe de Morango com Chocolate
Imagem: 'Céu estrelado' - Rafa Neves

sábado, 2 de agosto de 2008

Monólogos da cachaça

Crônica

Dias desses estava de plantão num dos hospitais em que trabalho. Na sala eu escutava um homem resmungar, rir, ameaçar. Era um turbilhão de sentimentos, sensações diversas, sons bizarros, piadas. Por vezes, notava que as enfermeiras tentavam indagá-lo, ajudá-lo; ouvia-se algum diálogo. Mas na maior parte do tempo o que eu ouvia era o Seu Fulano conversando sozinho, num solilóquio concentrado, aqueles monólogos que nos faz rir.


Terminei de suturar a mão delicada de uma mocinha, lavei-me, e fui ver o que se passava na sala ao lado. "Eu não estava fazendo nada, doutor." -- apressou-se o senhor. Não queria muito saber se ele tinha feito algo ou não, estava mais interessado em ver quantos cortes aquele senhor tinha na cabeça quase raspada. Negro, de boné branco, cheio de manchas de sangue no boné. Um legítimo tricolor.

Pedi os materiais necessários, posicionei o homem, e comecei a me preparar para suturá-lo. Não tinham menos de oito cortes na sua cabeça. Segundo ele, havia sido apedrejado. Suspeitei. A mira de quem o alvejou teria de ser muito boa para acertar só na cabeça. Além do que a forma dos cortes me fazia acreditar de que se tratava de pauladas.

Comecei costurá-lo, enquanto ele não parava de fazer piadas com todas as auxiliares, e com a sua própria situação. Sempre jurando revidar. E sempre falando que não estava fazendo nada com o outro homem que o agrediu. Insistiu tanto nessa fala que não me contive: "Mas Senhor Fulano, o que o senhor estava fazendo com o homem que te agrediu?".

"Uai, doutor...não fiz nada com ele não. Eu estava lá mexendo com a muié dele, mas com ele mesmo eu não fiz nada. Aí ele não gostou e me enxeu de pedradas." A seriedade com que ele disse isso era de comover qualquer cidadão, e fazer acreditar que ele era o Santo Expedito encarnado.

Não me contive. Sem que ele percebesse, dei um discreto sorriso e continuei a completar os mais de vinte pontos na sua cabeça.

Tem coisas que precisam realmente de uma explicação clara para que entendamos e sejamos convencidos.

Agora entendi, Seu Fulano.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Beber, cair, levantar' - Aviões do forró
Degustando Suco de Caju

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Parábola do papagaio

Crônica

Não sei se é piada já em forma de piada mesmo, ou se limita à citação de uma crônica de Humberto de Campos, na minha opinião, ainda o maior cronista da literatura brasileira.

Um sujeito queria comprar um papagaio, entre outras coisas, para ensinar-lhe a dizer todos os dias: "Deus seja louvado!", frase machadiana que durante algum tempo figurava nas cédulas do dinheiro em circulação. Um vendedor de papagaios ofereceu-lhe um espécime raro, belo e brilhante em sua plumagem verde e amarela, com alguns toques de azul, uma síntese animal das cores da nossa bandeira, salve, salve.

O comprador perguntou:
- Ele fala?

O vendedor respondeu:
- Não. Mas ele pensa.

Lembro a anedota às avessas, quando vejo e ouço certos governantes e políticos, o mais notório deles sendo o próprio presidente da República, que é uma mistura de político e governante.

Ao contrário do papagaio da anedota, eles falam, falam muito, falam demais, a qualquer hora e por qualquer motivo. Bem ou mal não importa para eles. O que importa é falar.

E ainda ao contrário do papagaio citado aí em cima, não pensam. Ou pior, só pensam naquilo. Como o Juquinha de outra anedota, que só pensava em sacanagem e coisas afins.

A nossa classe política, com as exceções de praxe e circunstância, que felizmente são muitas, está repleta de papagaios emplumados, patrióticos, alguns deles chegam a estar a venda. Falam, falam, mas não pensam no compromisso que assumiram nas campanhas eleitorais, quando juraram trabalho, honestidade e dedicação à causa do povo que os elegeu.

Carlos Heitor Cony¹


Ao som de 'Telegrama' - Zeca Balero
Degustando Leite Gelado com Chocolate
Imagem: 'Come capim porque gosta' - Luiz Lage


¹Carlos Heitor Cony, romancista e cronista, é imortal da Academia Brasileira de Letras e membro do Conselho Editorial da Folha.

sábado, 28 de junho de 2008

Meu último poema

Poesia
Onde está a paz?
Onde está o perdão?
Será que estão concentrados
Rezando
Num campo de concentração?

Onde está o amor?
Onde está o valor?
Será que estão delicados
Repousando
Numa lixeira da maternidade?

Onde está a comida?
Onde está a esperança?
Será que estão alados
Voando
Nos bolsos engravatados da ganância?

Onde estão os religiosos?
Onde estão os humanistas?
Onde estão os políticos?
Morreram todos na última guerra?
Já não são mais?

Onde estão todos, por favor?
Terminarei o meu último poema sozinho?

Eu grito; não ouvem.
Eu aceno; não enxergam.
Vivo o caos
Vivo o mal
Vivo o fim
Não vivo mais.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'One' - U2
Degustando Hemáceas
Imagem: 'Dachau Concentration Camp' - Hugo César

domingo, 22 de junho de 2008

Na janela velha

Poesia
Sabe, Dona Branquinha,
Daquela mocinha tímida

Eu só queria

Um namorinho de portão:


Dois olhares

Dois segundos

Dois "ois"


Duas cartas
Duas mãos

Duas alianças


Um altar
Um "sim"

Um coração.


Ismael Alexandrino



Ao som de 'Morena Flor' - Vinícius de Moraes e Toquinho
Degustando Chocolates Suíços

Imagem: 'Foto da Janelinha' - Patrícia Pedrini

sábado, 21 de junho de 2008

Eu quero fazer nada - o Nadismo

Manifesto

Quero que haja tempo para não ter nada para fazer.
Quero desfrutar destes momentos tranquilamente, sem pressa.
Quero compartilhar isso com os amigos.

Eu quero acabar com a pressão sufocante de estar sempre correndo atrás de um objetivo, de ter que estar o tempo todo fazendo algo que seja produtivo, útil, eficiente, rápido, dentro do prazo.

Quero minimizar a terrível sensação de que, por mais que se corra, nunca dá tempo para fazer tudo e nunca sobra tempo que não seja seriamente planejado, pois ficar sem fazer nada dá a impressão que se está perdendo tempo e isso nos faz sentir culpados.
Quero eliminar a pressa que faz a vida passar cada vez mais rápido.

Vivemos num sistema desregulado que nos cobra um preço muito alto: tensão, ansiedade e estresse.
Sei que não sou o único que sente isso e certamente há mais gente que se deu conta que está na hora de encontrar um equilíbrio e atentar para a qualidade da nossa vida agora e não depois, quando der.
Estou certo de que podemos mudar essa situação por que somos nós que fazemos as escolhas e podemos escolher ir mais devagar, aproveitando melhor o caminho.

Por isso foi criado o Clube de Nadismo. Para proporcionar a experiência, para dar o gostinho, para criar o hábito e para que ele se estenda e repercuta na vida como um todo.
Não se trata de uma pausa para descanso para depois voltar com todo gás.

É fazer nada sem objetivo nenhum, como um fim em si mesmo.
É algo para ser absolutamente sem utilidade, não produtivo, sem expectativas, sem controle. Simplesmente relaxar e deixar acontecer.
Deixar fluir.

Espero que assim chegue o dia que a palavra estresse seja obsoleta.

Conto com todos os que quiserem fazer parte deste tempo de serenidade, harmonia e consciência.
Vamos não fazer juntos.

Marcelo Bohrer, o Marboh¹


Ao som de 'Nada'
Degustando 'Nada'
Imagem: Mascote do Clube de Nadismo - Marboh

¹Marcelo Bohrer, o Marboh, é designer, consultor criativo e fundador do Clube de Nadismo.