Café Alexandrino - O lado aromático da vida

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Pés na areia

Poesia

Já não somos ideais.
A bem da verdade,
Desisti do ideal.
Do certinho.
Do utópico.
Utopias me afligem.

Justamente por serem utopias.

Mas somos possíveis.
Cada vez mais possíveis
Neste mundo de incertezas
Mundo de possibilidades infinitas
Infinitamente melhores que o ideal.

Justamente por serem possíveis.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Metade' - Adriana Calcanhoto
Degustando Morango com Leite Condensado
Imagem: 'Pés na areia' - Interlúdio

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Moldura

Poesia

Uma cidade fortificada
Costumes provincianos
Liberdade conquistada.
Fascinante paradoxo,
Um castelo de sonhos
Surrealidade contemporânea.

Emergiste ou deliro?
Emergiste. Estou certo.
Deliro. Estou certíssimo.
Onde está – se porventura há –
O erro desta pintura?
Não há erro algum.

Óleo sobre tela
Cores misturando as pernas
Misturando os sentidos
Moldura sob medida:
És uma cidade fortificada
E frágil;
Preso estou em teu seio
E forte.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Esquadros' - Adriana Calcanhoto
Degustando Pêssego em Calda com Creme de Leite
Imagem: 'Castelo de Santa Maria da Feira' - Luís Bravo Pereira

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Sobre o comunismo

Curtas

Karl Max foi um embusteiro intelectual que distorcia fatos. É claro que seu sistema não funcionou quando aplicado à União Soviética: estava todo embasado em falsidades. Seu único legado foi conduzir um país rico como a Rússia à pobreza. Não há qualidades redentoras, nenhuma que seja, no marxismo. Aqueles que discordarem de mim que mostrem provas. Mostrem-me um regime que tenha empregado princípios marxistas e tenha melhorado a vida de seus cidadãos. Não há. Todos os que enveredaram por esse caminho na Europa, América Latina, Ásia ou África falharam. Também não faço nenhum distinção entre nazismo, comunismo e facismo. Foram todos movimentos totalitários e radicais pertencentes à esquerda. Marx, afinal de contas, derivou todas as suas teoris de Hegel, assim como os nazistas. Todos os sistemas totalitários do século XX foram de esquerda: apenas na superfície pareceram pertencer à direita.

Paul Johnson¹


Ao som de 'Minha casa' - Zeca Baleiro
Degustando Nuggets

¹Paul Johnson é ensaísta, escritor, jornalista e historiador inglês.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Sobre a tristeza

Curtas

Às vezes a tristeza se liquefaz, salga a língua, e pinga no chão.

Ismael Alexandrino

Ao som de 'É isso aí' - Ana Carolina e Seu Jorge
Degustando Poeira

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Suspiro

Poesia
A saudade me bate
A distância me isola
O amor arde.

Preciso dizer quantas vezes
Que já não te quero mais
Longe de mim?

Ismael Alexandrino


Ao som do mar
Degustando Água com Gás
Imagem: 'Contemplando o Mar Adriático' - Diego Farias

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Madrugada

Poesia

As lembranças não são vagas.
São latentes, fortes, intensas.

Ainda sinto teu perfume
Respiro-te.
Ainda vejo teus olhos
Navego-te.
Ainda sinto gosto hemático
Degusto-te.

Meu cenho franzido
Sorri levemente
Quando te penso:
Antes de ver-te,
Já te via.
Antes de cheirar-te,
Sentia-te toda.
Engravidei meus pensamentos
Fecundados na última hora.

E o tempo – fugidio –
Sempre corre
Deixando-me à pé
E sozinho.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'The Blower's Daughter' - Damien Rice
Degustando Crepe de Morango com Chocolate
Imagem: 'Céu estrelado' - Rafa Neves

sábado, 2 de agosto de 2008

Monólogos da cachaça

Crônica

Dias desses estava de plantão num dos hospitais em que trabalho. Na sala eu escutava um homem resmungar, rir, ameaçar. Era um turbilhão de sentimentos, sensações diversas, sons bizarros, piadas. Por vezes, notava que as enfermeiras tentavam indagá-lo, ajudá-lo; ouvia-se algum diálogo. Mas na maior parte do tempo o que eu ouvia era o Seu Fulano conversando sozinho, num solilóquio concentrado, aqueles monólogos que nos faz rir.


Terminei de suturar a mão delicada de uma mocinha, lavei-me, e fui ver o que se passava na sala ao lado. "Eu não estava fazendo nada, doutor." -- apressou-se o senhor. Não queria muito saber se ele tinha feito algo ou não, estava mais interessado em ver quantos cortes aquele senhor tinha na cabeça quase raspada. Negro, de boné branco, cheio de manchas de sangue no boné. Um legítimo tricolor.

Pedi os materiais necessários, posicionei o homem, e comecei a me preparar para suturá-lo. Não tinham menos de oito cortes na sua cabeça. Segundo ele, havia sido apedrejado. Suspeitei. A mira de quem o alvejou teria de ser muito boa para acertar só na cabeça. Além do que a forma dos cortes me fazia acreditar de que se tratava de pauladas.

Comecei costurá-lo, enquanto ele não parava de fazer piadas com todas as auxiliares, e com a sua própria situação. Sempre jurando revidar. E sempre falando que não estava fazendo nada com o outro homem que o agrediu. Insistiu tanto nessa fala que não me contive: "Mas Senhor Fulano, o que o senhor estava fazendo com o homem que te agrediu?".

"Uai, doutor...não fiz nada com ele não. Eu estava lá mexendo com a muié dele, mas com ele mesmo eu não fiz nada. Aí ele não gostou e me enxeu de pedradas." A seriedade com que ele disse isso era de comover qualquer cidadão, e fazer acreditar que ele era o Santo Expedito encarnado.

Não me contive. Sem que ele percebesse, dei um discreto sorriso e continuei a completar os mais de vinte pontos na sua cabeça.

Tem coisas que precisam realmente de uma explicação clara para que entendamos e sejamos convencidos.

Agora entendi, Seu Fulano.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Beber, cair, levantar' - Aviões do forró
Degustando Suco de Caju