Café Alexandrino - O lado aromático da vida

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Direções

Cento e oitenta graus de horizonte
Escurecido, iluminado, escurecido,
Timidamente iluminado.

No norte, a um palmo da superfície
Há uma nuvem rala, relâmpagos,
E uma tímida lua quase cheia
Beijando águas calmas.

A leste, um violão ressoa
Um pop dos últimos 10 anos,
E suponho que um brasileiro
Canta um inglês quase bem
Alternando com Norah Jones
Numa vitrola moderna.

No sul, mistérios guardados
Em cada quarto acesso,
E em cada traseunte
Que busca descanso
- do corpo, da alma, da vida.

A oeste, tudo que desejo:
Um coração petrificado (certamente!)
Que anseia por carinho (emoliente)
Um choro engasgado (descrente)
Que lacrimeja e respinga (quente)
Em cada lembrança (da gente).
Há também amor retido,
- talvez ferido (depois) -
Em cada ausência minha (de nós dois).
Há, sobretudo, um futuro latente,
Bonito, ansioso,
E presente.

Ismael Alexandrino

Ao som de 'Better Man' - Robbie Willians
Degustando Água com Gás

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Biblioteca

Tenho livros que nunca li
-- e é provável que nunca os leia.
Outros que folheio
-- e é possível que...

Alguns li,
Poucos reli,
E há os que sempre visito.

Mas tu, papai,
-- precioso livro --,
-- enciclopédia minha --,
Li
Folheio
Reli
E sempre visito.

No seu
No meu
Mais profundo silêncio.

Leio
Folheio
Releio
Visito.

Toco a página,
(face singela)
Aspiro-a.
Suspiro.

Uma peça:
Crônica
Dramática
Poética.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Those sweet words ' - Norah Jones
Degustando Chá Mate Gelado






sexta-feira, 11 de março de 2016

Chuvinha

Pingo
Pingo
Pingo

Es-corre, corre, corre...

E vai lavando
A alma
Da terra vermelha
De chorar

Es-corre, corre, corre...

Chuá!

Abre a cratera
- veios, veias -
Circulação pluvial...
Endovial!

Mina d'água
Rego d'água

Es-corre, corre, corre...

Levando para longe
A poeira no semblante
A solidão pensante
E o gosto de sal.

Ismael Alexandrino

Ao som de sapos e gias
Degustando Negresco

domingo, 3 de janeiro de 2016

DAI-me hoje

Lembro do Rubem
Da pipa
Da flor.

Da liberdade
Que apreende.

Faz bem
(Suspiros!)
Sem dor.

O que me encanta,
Menina,
-- apesar dos cabelos --,
Da pele,
Do dedinho torto,
Das belas mãos...

Não é a beleza.

São os olhos.

Ismael Alexandrino

Ao som de Sabiás
Degustando Ameixas Geladas

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

No princípio era O Verbo

Já fui indagado na Academia e na vida cotidiana e profissional do porquê que eu, como médico, acredito em Deus. Segundo o silogismo de quem me indagou, as premissas são que "ser médico é ser cientista, e para ser cientista, não se deve acreditar em Deus".

Ledo engano. Sinto muito em frustrar quem me perguntou. Quanto mais estudo a medicina, a vida, a saúde ou a falta dela, o ser humano, os demais seres viventes, e também os inanimados, quanto mais vivencio o improvável, os milagres, mais acredito em Deus.

Lembro-me de Louis Pasteur: "Um pouco de ciência nos afasta de Deus.  Muito, nos aproxima!"

Tenho o direito de acreditar que exista no mundo algo muito maior, adimensional, transcendente, inexplicável e impressionante, que gerou, deu forma, e rege todas as coisas; as passadas e as que hão de vir; as do Chronos, e as do Kayrós.

Mais que direito, tenho convicção.

E a este ente inexplicável, que muitos chamam de "Energia", eu opto por chamar de Deus. Deus, palavra que em si encerra todo significado. Poeticamente, O Grande Arquiteto do Universo.

É tão espetacularmente simples que chega a ser constrangedor. E não tem a ver só com fé, tem a ver com inteligência, raciocínio organizado, percepção, lucidez. Sou uma das pessoas com menos fé que conheço. "Homem de pequena fé", admito.

O interessante é que a falta de fé não exclui a existência de Deus. Com fé ou sem fé ELE existe, e não depende de confissões, assertivas, constituições, profissões de fé, encíclicas, pregações, crenças, pastorados, mentoriados, ou papados.

Que o amor infinito e sobrenatural de Deus possa nascer em cada coração. Que a paz surpreendente que vem Dele e que excede todo entendimento possa invadir cada célula do seu organismo e dos da sua família.

Desejo que este nascimento em cada ser humano seja constante e intenso.

Feliz nascimento! Feliz natal!

Ismael Alexandrino

Ao som de 'Aria' - Sebastian Bach
Degustando Miolo de Pão Francês

domingo, 29 de novembro de 2015

Velho

Outrora broto
Folha verde
Caule roto

Foices ignorantes
Enxadas intuitivas
Canivetes afiados
Brocas (alta e baixa rotação)

Chuva fina
Terra molhada
Raiz profunda

Ventos fortes
Terra seca
Casca grossa

Fogo
Cascalho
Sol
E poeira.

Intempérie!

Desde novo,
Provações.
Ainda assim,
Canções.

Rompeu
Cresceu
Permaneceu

E morreu...
Ou quase.

Ismael Alexandrino

Ao som de 'Meu velho pai - Leo Canhoto e Robertinho'
Degustando bagos de jaca mole

domingo, 9 de agosto de 2015

Aos pais

Bom dia aos amigos pais e aos pais de amigos. Pais de sangue, pais de criação, pais de consideração. Figura muitas vezes incompreendida, alvo de menos manifestações de afeto do que merece.

A ele, ao pai, Deus o constituiu a base do lar e imputou-lhe a responsabilidade de prover a família e de amar a esposa e filhos, dando a própria vida se preciso for.

A este ser, símbolo de força, com indescritível e quase imperceptível fragilidade, dedico-lhes não só minhas parcas e singelas palavras, mas o meu respeito, a minha admiração, a minha devoção.

Rogo a Deus, O Grande Arquiteto do Universo, e Pai de Amor e Bondade que lhes abençoes, lhes ilumine, lhes dêem sabedoria, discernimento, coragem, força.

São os votos sinceros de um filho que almeja - quiçá um dia! - ser pai.

Ismael Alexandrino (o Júnior, ao pai)

Ao som de 'Pai' - Fábio Júnior
Degustando Bolo de Milho