Café Alexandrino - O lado aromático da vida

terça-feira, 29 de novembro de 2005

Suplício

Poesia

Ó dor! O que tu queres,
podes bem me falar?

Tira meu sono, silencia o meu cantar,
Desfaz os sonhos, põe pedras para escalar
Calas minha boca, fazes-me suspirar.
Deixa de ser lacônica!
Criança má, hedônica
Pára de gritar, sinfônica
Voz aguda, grave, harmônica

Ó dor! O que tu queres,
podes bem me mostrar?

Imputa-me o tédio, faz da angústia doença
Sem remédio, descrença
Me joga no abismo, não pensa.
Deixa de ser vil!
Imatura, infantil
Pára de gesticular, pueril
Obscena, teatróloga feminil

Ó dor! Por que não cresces a ponto de me matar?
Afugentas meu semblante, tolhes meu sorriso
Auguras meus planos, futuro que preciso
Enegreces meus olhos, obscureces o paraíso
Deixa de ser mesquinha!
Cobra criada, abelha rainha
Pára de cutucar, largue sua varinha
Mata-me ou me deixa, mas não me definha

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Você não me ensinou a te esquecer' - Caetano Veloso
Degustando Café Preto Amargo
Posted by PicasaImagem: 'Banco' - Elvis Melnisk

sábado, 26 de novembro de 2005

Reencontro

Conto


E o restaurante pareceu-me uma grande cartola e ela a nova surpresa que aparecia agora ao público (quem me dera que a platéia se resumisse a mim). Olhos cansados, embora o brilho permanecesse o mesmo, ou maior estivesse - o que é pior. Os cabelos de um colorido incerto e a pele com uma tenacidade abrandada, encoberta por um luto falso vinha em minha direção. De olhos fechados poderia descrever o vai-e-vem da carne negra em seu caminho. Mas o que mais me chamou a atenção foi o sorriso ( grande demais para o que eu me recordava). E isso me causou estranheza. Sem perceber-me, ela saiu. Meu corpo cansado frustrou meus pensamentos fugidios que a seguiam agora pelas ruas.

Resolvi pedir mais uma cerveja (talvez para fingir que nada havia acontecido). Depois fui para casa onde Rilke me esperava ansioso por causa do jantar. Aquele grande sorriso não saia da minha cabeça. E isso me causava angústia. Por que naquele momento a sós os lábios tão escancarados? Para que tanta exuberância? Para quem àquela janela doce se abrira? E acordei na manhã seguinte com Rilke lambendo meu rosto. Já eram dez horas e ele estava com fome.

Uma semana depois, fui novamente ao restaurante na esperança de reencontrar aquele sorriso agora mais tímido. E dentre vários lábios os dela não estavam lá, mas dentro de mim já me encobriam a face.

E esse ritual de ida e frustrações continuou por várias semanas.

Hoje faz um ano que aquele grande sorriso aqui apareceu, e agora ele me encobre todo. Hoje me arrependo de não tê-la seguido(talvez para pedir perdão e carinho, ou para perguntá-la o porquê daquela feição). Hoje faz onze anos que nós nos separamos por minha vontade e desespero dela.

João Antonio Ribeiro


Ao som de 'Chega de Saudade' - Vinícius de Moraes e Tom Jobim
Degustando Cerveja Preta
Posted by PicasaImagem: 'Casario'- Manoel Martins

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

Espelho do coração

Poesia


Quando te olho, vejo-me sorrindo
Se choras, lágrimas rolam em meu rosto
Quando alegras, não me contenho de felicidade
Se fazes mais um ano, lembro que o amor não tem idade
Quando repousas, eu te contemplo
Se dormes, também estou dormindo
Quando sonhas, nas nuvens brincamos juntos
Se acordas, não demoro para te servir o café
Quando levantas, já estou de pé
Se inspiras, eu expiro
Quando não está perto, eu piro
Se aproximas, eu suspiro.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Olhos no espelho' - João Alexandre
Degustando Chá de Hortelã
Posted by PicasaImagem: 'Menina Diante do Espelho' - Pablo Picasso, 1932

terça-feira, 22 de novembro de 2005

Aos mestres

Crônica de bolso


Como é bom viver perto de homens e mulheres que são os melhores na sua área (para meus olhos críticos pelo menos). Escutar prestando atenção a cada palavra dita, para não ser surpreendido com a falta de entendimento que vem depois do deslize, é uma constante. Que prazer cansativo! Olhar vendo essas pessoas como mestres, que sabem muito mais que você, porém com um contínuo desejo de saber mais. E você, atrás, tem que correr. Que cansaço prazeroso!

Entretanto há um fato: essas pessoas não são como são (mestres) só porque são os melhores na sua área , mas também (e principalmente) por serem homens e mulheres com mentes abertas: todo e qualquer assunto é tema de uma discussão, que visa o aprendizado. E que discussões! Para saber e sentir como são esses debates, basta chegar e dá um mote, que a glosa vem logo depois. E se deliciar... .Um quesito, porém, não pode deixar de ser destacado nessas pessoas: a simplicidade. Sem ela, uma pessoa pode até ser grande, mas nunca bela. E a beleza é inerente nesses mestres.

Escutai-vos, pois eles sempre terão algo a dizer , e o que é melhor , algo pertinente. Admirai-vos, pois o belo na vida, tanto quanto na arte e na natureza, existe para ser admirado. (Não me cabe aqui julgar qual deles é o maior). Cultivai-vos, pois eles são poucos, porém imprescindíveis, porque lutam a vida toda, já dizia Brecht. E por fim, tornai-vos um deles, que as inspirações de outros vão surgir e, assim, mover o mundo.

João Antonio Ribeiro



Ao som de 'Missa em Si menor' - Bach

Degustando Café Vienense
Posted by PicasaImagem: 'Shakespeare' - Tarsila do Amaral

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

"Ubi tu ILA, ibi ego ILO"

Poesia

A poesia abaixo é escrita em Latim e tem como base o livro de Cantares de Salomão e escritos de Caio Fábio.

Inspirado en amada mía, ILA, decidi escribir mi Cantar de los Cantares...

Ah, si me besaras con los besos de tu boca porque mayor en verdad es tu amor, más que el vino!

Tus unguentos tienen olor agradable, tu nombre es como fragante perfume;
¡Llévame a nuestra habitación. ¡Date prisa!

Si tú no lo sabes, ¡oh la más hermosa de las mujeres!, sal tras las huellas del rebaño, y apacienta tus cabritas junto a las cabañas de los pastores. Allí me encontrarás.

Eres más hermosa en tu porte de mujer vigoza que las yeguas libres en las colinas.

Hermosas son tus mejillas entre los adornos, tu cuello, con los collares son pura seducción. Adornos de oro haré para ti, con cuentas de plata. En ellos grabaré con fuego: "Ubi tu ILA, ibi ego ILO".

Cuán hermosa eres?, amada mía, cuán hermosa eres?

Tus ojos son como palomas imaculadas.

Como azucena entre las espinas es mi querida entre las mujeres. Quien las puede comparar?

Llevame a la sala de bailes, y pone sobre mi tu amor como un estandarte para que todos lo vean.

Sustentadme con tortas de pasas, reanimadme con manzanas, porque estoy enferma de amor por ti.

Esté su mano izquierda bajo mi cabeza y su derecha me abraze.

Levántate, amada mía, hermosa mía, y ven conmigo.

Pues mira, ha pasado el invierno, ha cesado la lluvia y se ha ido.

Han aparecido las flores en la tierra; ha llegado el tiempo de la poda, y se oye la voz de la tórtola en nuestra tierra.

La higuera ha madurado sus higos, y las vides en flor han esparcido su fragancia. Levántate amada mía, hermosa mía, y ven conmigo."

Paloma mía, en las grietas de la peña, en lo secreto de la senda escarpada, déjame ver tu semblante, déjame oír tu voz; porque tu voz es dulce, y precioso tu semblante.

Eres Hermosa, querida mia, cúan bella eres! Tus ojos son como los ojos de las palomas que brillan em noche oscura. Tus pelos son perfumados como la primavera encantada. Tus dientes son perfectos y limpios. El perfume de tu boca es dulce, como una mezcla de todos los mejores perfumes.

Tus labios son cual dibujo; tu semblante como la ofrenda de las mejores frutas, por eso me gusta morder y probar con mi lengua.

Tu cuello es perfecto para las joyas. Tus pechos parecen dos cervatillos, dos crías mellizas de gacela que pastan entre azucenas.

Eso te digo, yo tu marido: Antes de que el día despunte y se desvanezcan las sombras, subiré a la montaña de la mirra, a la colina del incienso y desfrutaré.

Toda tú eres bella, amada mía; no hay en ti defecto alguno.

Ven conmigo mujer mía, ven conmigo; mira los rios de mi tierra, oye los cantos nocturnos de las guaribas, quiero despertarte con el canto del Uirapuru.

Cautivaste mi corazón, hermana y novia mía, con una mirada de tus ojos; con una perla de tu collar de amor compraste mi corazón para siempre.

Cuán delicioso es tu amor, mi mujer, mujer mia!

Más agradable que el vino es tu amor. Tu perfume es mejor que cualquier fragancia en el mercado de perfumes.

Tus labios, mujer mia, destilan miel. Miel y leche escondes bajo la lengua y el olor de tus vestidos es como del Opium.

Jardín cerrado eres tú, hermana y mujer mía; sellado manantial!... eres mia.

De ti vienen los perfumes que encantam mi alma.Tus pechos son un huerto de granadas con frutos exquisitos, con flores de nardo y azahar; con toda clase de árbol resinoso, con nardo y azafrán, con cálamo y canela, con mirra y áloe, y con las más finas especias.

Eres fuente de los jardines, manantial de aguas vivas, ¡arroyo más fuerte que él Amazonas!

Viento del norte, despierta! ¡Viento del sur, ven acá! Soplen en mi jardín; dispersen su fragancia. He entrado ya en mi jardín, hermana y novia mía, y en él recojo mirra y bálsamo; allí me sacio de los mejores frutos. Si, he entrado en mi jardín y allí me embriago de vino y leche; estoy saciado y feliz!

Mujer mia, amada mía; preciosa paloma mía, ¡déjame entrar!

Mi cabeza está empapada de rocío; la humedad de la noche corre por mi cabello. Dejame entrar en mi jardin! Ya me he quitado la ropa; ¡cómo volver a vestirme! Ya me he lavado los pies; ¡cómo ensuciarlos de nuevo!

Tú, amada mía, mujer mía, eres bella. Aparta de mí tu mirada, pues tus ojos me pretuban. Tus cabellos bajan por las curvas de tu espalda. Yo estoy hechizado de tu amor! Por eso huyi de ti, pues tuve miedo de perder el control sobre mi propia vida!

Pueden ser sesenta las reinas, ochenta las concubinas e innumerables las vírgenes, pero una sola es mi palomita preciosa, mi inmaculada... Las mujeres la ven y la bendicen; las reinas y las concubinas la alaban pues mi amor es tuyo.

Quién es ésta, admirable como la aurora? ¡Es bella como la luna, radiante como el sol, majestuosa como las estrellas del cielo!

Ella es única, mi amada, mi jardin sellado!

Cúan hermoso es tu caminar en sandalias, oh hija de príncipes! Los movimientos de tu quadril son como la seducción de las olas de un lago de deseo. Tu genitalia es la copa donce no falta bebida; tu vientre es como una porción de dulces deseables, cercado de todos los vinos. Tus pechos? ah son dos almohadas de placer?.con perfume de saputi y de miel. Tú cuello es como una invitación al deslize? tus ojos son como piletas que invitan a que uno se desnude y se ahogue en ti. Tú nariz anuncia tu nobleza y tu inteligencia, y tambien habla de la elegancia de tus deseos. Tú cabeza es altiva; tu cabello como un sueño de verano, un rey esta atrapado en tus trenzas? para siempre!

Cuán bella eres, amor mío, ¡cuán encantadora en tus delicias!

Tu talla se asemeja al talle de la palmera, y tus pechos a sus racimos. Me dije: «Me treparé a la palmera; de sus racimos me adueñaré.» ¡Sean tus pechos como racimos de uvas, tu aliento cual fragancia de manzanas, y como el buen vino tu boca!

Ponme como sello sobre tu corazón, como sello sobre tu brazo, porque fuerte como la muerte es el amor, inexorables como el Seol, los celos; sus destellos, destellos de fuego.

Las muchas aguas no pueden extinguir el amor, ni los ríos lo anegarán; si el hombre diera todos los bienes de su casa por amor, de cierto lo menospreciarian.

"Ubi tu ILA, ibi ego ILO"

Ismael Alexandrino

Ao som de 'Românticos' - Vander Lee
Degustando Chocolate Quente
Posted by PicasaImagem: 'Monalisa' - Leonardo da Vinci, 1503

sexta-feira, 18 de novembro de 2005

A senhora e a pedra

Conto

... Curta Parada ...
E a senhora, cansada de esperar, sentou na areia. Como se tivesse achado uma pedra preciosa, pegou o seixo e ficou olhando para ele, imóvel. O que se passava na cabeça dessa senhora calejada e tão delineada pelas curvas dos ossos? Talvez ela estivesse com inveja desse ser inanimado, por ele ser tão polido... como podia isso acontecer?... (não sabe o tempo que a água levou para essa pequena pedra ser esculpida. Quem sabe se ela também tivesse pelo menos um pouco mais de intimidade.)

Será que a saudade do marido lhe corrompia? Que sorte esta pedra poder viver por si só, sem de ninguém sentir saudade. Ah, era para cor viva que ela dedicava àqueles olhares fundos e negros que imitavam a sua cor (a sua alma talvez fizesse parte dessa escuridão). E o cansaço de seu membro tão delineado pelas curvas ósseas não acabou com o diálogo: a sua outra mão já a recebia como filha, mas por pouco tempo. A senhora , tomada por um impulso que não se transmitia para a face, arremessou o seixo que não ultrapassou um metro. O que a levou a arremessar com todas as suas forças? Infelizmente não pude perguntá-la, pois o pneu do ônibus foi consertado e seguimos viagem (depois fui refletindo no caminho e acredito que ela lançou a pedra para se libertar, libertar-se do pensar, posto que os meninos deveriam estar com fome em casa e ela precisava levar as palmas que estavam no saco azul ao seu lado).

João Antônio Ribeiro

Ao som de 'Cajuína' - Caetano Veloso
Degustando água
Posted by PicasaImagem: 'Cena Árabe' - Dario Mecatti

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Gota d'água

Poesia

O teu silêncio debruçado
Na janela deste quarto à meia-luz
Pesa em meus cansados ombros
Uma angústia tão única e tão tua
Que não me compete entender - te
Muito menos ajudar - te.

Se eu o fizesse por amor,
Admito que seria cena de filme.
Mas meu amor terminou hoje
Logo depois do almoço --
-- às treze e trinta e nove.

Se eu o fizesse por pena,
Tão somente trasladaria teu fardo
Para um lugar frágil e incapaz
De suportar tamanha vaidade.

Se eu o fizesse por amizade,
Estaria quebrando meu orgulho
Que estimo desde a tenra idade.

Por consideração,... nem pensar!
Estou petrificado, pálido e gélido.

Em tempo, demito-me de ti.


Ismael Alexandrino


Ao som de 'Gota D'água' - Chico Buarque

Degustando Cappucinu de Chocolate com Leite Condensado
Posted by PicasaImagem: 'A Janela' - Paula Rego, 1997