Café Alexandrino - O lado aromático da vida

quarta-feira, 29 de março de 2006

Soneto da União

Poesia

De repente do pranto fez-se o riso
Eufórico e colorido como o arco-íris
E dos azuis arregalados da sua íris
E dos abraços apertados o amor preciso.

De repente do vendaval fez-se a calmaria
Que dos olhos brotou de quem ama
E do amor fez-se o sentimento que ficaria
E deste a eterna união que se proclama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se alegre o amado-amante
E unido aos demais viajantes.

Fez-se do amigo mais distante o irmão
Fez-se da vida uma aventura contagiante
De repente, alegrou-se o coração.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'A paz' - João Bosco
Degustando Sorvente de Creme com Licor de Chocolate
Imagem: 'Vila da Paz' - Lucinda Lírica

sábado, 25 de março de 2006

Escravos da liberdade

Crônica

Que conceito de liberdade permeia nosso entendimento, à luz de Aurélio e à Guisa de nós mesmos, em face da conjuntura que a história nos prescrevera? É possível que uma reflexão mais acurada do pretérito que escrevemos, após os eventos do Ipiranga, da Lei Áurea e da expulsão dos holandeses e judeus de Pernambuco, nossa visão sobre este tema mude um pouco! Liberdade, talvez, seja uma das coisas mais relativas da vida.

Que Estado livre nos outorgou Dom Pedro, diante de todos os descaminhos governamentais por que passamos, das Capitanias Hereditárias à ditadura militar e, mais recentemente, à democracia vilipendiada pelos estrondosos escândalos de corrupção, que ferem o erário brasileiro e os preceitos básicos de ética e civismo da nação?

Que liberdade nos outorgara a Princesa Isabel, se nossos semáforos, hoje, são moradia e ponto de mendicância de verdadeiros escravos sociais ? na maioria dos casos ? de pele pigmentada?

Que liberdade nós conquistamos ao expulsar daqui Maurício de Nassau e, com ele, alguns princípios de cidadania que o tempo é pródigo em mostrar que não fomos capazes de desenvolver, enquanto "livres"?

Que idéia de liberdade formamos ao açoitar o capital judeu, no início de nossa organização sócio-política, se somos escravos, agora, do dinheiro volátil internacional, que deixa nossa economia a mercê dos eventos globalizados, os mais diversos? Parece razoável pensar que nos constituímos escravos de nosso passado, de nossas dívidas externas e de nossos próprios mecanismos de sujeição. ? O que dizer do INSS e da CPMF sem saúde, do IPVA sem estradas, do IR sem escolas e das dezenas de siglas dentro deste mesmo diapasão?

Como se não bastasse, a modernidade e a violência, travestidas de liberdade, nos apregoam uma escravidão sem antecedentes em nosso país! Esta convulsão social que construímos nos castrou a liberdade de caminhar pelas ruas das cidades, nos tirara o direito de entrar num estabelecimento comercial sem o pavor dos assaltos, de dirigir nossos veículos sem o pânico do seqüestro e do roubo iracundo! Pior, ainda, essa escalada de violência está formando, no bojo social mais limpo, uma nova mentalidade conceitual. Não raro, ouvimos a seguinte colocação de vítimas coagidas pelo crime xucro e desumano: "Graças a Deus que só levaram o carro e os pertences materiais!" ? Onde vamos parar? Ou melhor, aonde não vamos, porque a melhor política, hoje, é não sair de casa (estamos presos em nossas próprias residências)!

Finalmente, a tecnologia e suas grandes conquistas ? pautadas na busca da independência humana ? nos escraviza ao agredir a liberdade individual, em gradação constante! Somos escravos modernos de longas horas-extras de trabalho, às vezes, madrugadas-a-dentro, para atendermos à demanda de e-mails e afazeres outros desta nova época! E o que dizer do telefone móvel, que nos cerceia o direito mais genuíno de, em algum momento mais nosso, não termos o direito de não estar!

Assim, parece cada dia mais viva a célebre frase do brigadeiro Eduardo Gomes, que em 1946 perdera a disputa pela Presidência da República para outro militar, o General Eurico Gaspar Dutra: "O preço da liberdade é a eterna vigilância".

Sinceramente, precisamos rever nossos conceitos de liberdade, ou de escravidão.

Avaniel Marinho

Ao som de 'História da Liberdade no Brasil' - Martinho da Vila
Degustando Café Preto
Imagem: 'A Liberdade Guiando o Povo' - Delacroix

terça-feira, 21 de março de 2006

Medicina e cura

Ensaio

Ao se falar de métodos de cura tem que se ter a noção que nem sempre fala-se de medicina. Portanto, não cabe na discussão a vituperação de quaisquer ciências ou atitude que possam de algum modo promover a cura de alguém.

É sabido que a medicina atual, principalmente a ocidental, encontra-se altamente arraigada e com os pés calcados num tecnicismo positivista voltado à erradicação de doenças. Contudo, uma visão menos segmentada do ser humano deve ser analisada pelo médico que se propõe a cuidar de um doente. Digo "cuidar" do doente por achar tal verbo com uma semiótica mais completa do que o "curar". Curar se detêm apenas no fato de recuperar a saúde. Cuidar vai além! Cuidar é zelar pelo bem-estar ou pela saúde de alguém, mesmo que a cura não seja possível.

Concerne ao médico, o entendimento e compreensão de que muitas doenças apresentam um viés psicológico importante e, como tal, a terapêutica nem sempre está atrelada somente à administração de drogas, principalmente as alopáticas. O que se percebe é uma discriminação e preconceito com relação aos diversos métodos de cura. Tais atitudes devem ser revistas, pois sabe-se que, desde os tempos longínqüos, praticamente todas as civilizações utilizam algo que foge ao científico, ao empírico, para se obter a cura. Magias, mitos e elementos religiosos, tudo se unia de alguma forma à ciência, adaptando-se à cultura local para se curar um enfermo. Daí vieram muitas técnicas e costumes que hoje são empregados como, por exemplo, cromoterapia, yoga, heik, curas mediúnicas, acupuntura, fitoterapia, dentre outras.

Assim, de uma forma holística, depreende-se que, muitas vezes, controlando a psiquê do indivíduo, harmonizando-o espiritualmente e até mesmo socialmente, obtém-se a cura alcançando, desta forma, o pleno cuidado do paciente. É importante que o paciente tome consciência do processo do seu tratamento aderindo-se a ele, tornando-se um agente. Daí mais um fator relevante dos métodos alternativos; pois, sendo eles menos agressivos ao organismo, torna-se mais fácil a adesão.

Em suma, percebe-se que a nobre arte de curar extrapola os ensinamentos da academia médica e, por conseguinte, os limites do empirismo científico. Posto feito, ao cuidar de um paciente, a individualidade de cada um deve ser analisada, bem como respeitada as diversas terapias, tratando o próximo sempre com muita dignidade e humanismo.

Ismael Alexandrino

Ao som de 'I remember' - John Pizzarelli
Degustando Café com Raspas de Chocolate
Imagem: 'Retrato do Dr. Gachet' - Vicente van Gogh

domingo, 19 de março de 2006

O sexo já foi um comício e hoje é um mercado

Crônica

Eu só penso em sexo. Você também, recatado leitor. Todos os nossos sentimentos estão sendo canalizados para um mesmo buraco. Nunca vi a mídia tão sexualizada como hoje em dia. Ando pela rua e todos os outdoors são de mulher nua ? outro dia, quase bati o carro na Marginal Pinheiros, por causa da lourinha nua da "Playboy". Todas as capas de revista, tudo, é uma grande feira de mulher gostosa e homens raspadinhos. Tudo parece liberdade, mas a coisa é outra.

O programa do SBT, por exemplo, "Casa dos artistas", joga com uma aparente liberdade, mas trabalha com um voyeurismo baixo nível, com o público apenas querendo ver "quem come quem". O desejo do público é ver pelo "buraco da fechadura" a pretensa "descontração" dos "artistas", pois para a população de pobres trabalhadores, artista ainda é sinônimo de prostituta ou malandro, como para Silvio Santos, como no século XIX. Por que não mostram a casa das elites? Ou a casa do próprio Silvio? Não. Ali, não. Ali moram as famílias, a base social da revista "Caras", longe dos "sem-vergonhas" de sunga. Nunca vi tanta propaganda na mídia do sexo de consumo, a azaração e o sexo quantitativo te levando a comprar um sabonete ou a beber uma cerveja. A propaganda nos promete uma suruba transcendental. Todos queremos ir. Mas onde é?

Diante desta orgia pública dos milhares de corpos malhados de moças pobres e esperançosas, nos sentimos mal comidos, insatisfeitos, certos de que há uma casa de artistas de TV e playboys que se dão melhor que nós. Todos somos otários diante deste harém movente de apresentadoras, modelos, malandros e heróis sem camisa.

Antigamente, ou seja, nos anos 60 (oh... os recentes anos remotos) o sexo era uma novidade política, depois dos caretíssimos anos 50, quando até a gravidez era uma espécie de doença venérea, como disse o Rubem Braga. O sexo tinha algo de crime, algo de secreto, o pecado perfumava nossas vidas com o estímulo da culpa. Não havia motéis, nem pílula que, depois, fizeram mais pela liberdade sexual que mil livros feministas.

Nos anos 60, sexo era revolução política. Tudo era político. Eu me lembro da carta de amor de um comuna amigo meu que dizia para a mulher amada: "Querida, nosso amor é também uma forma de luta contra o imperialismo norte-americano". O sexo dos anos 60, o sexo teórico, o sexo utópico, mitológico (para pequeno burguês intelectualizado, claro...) era o apagamento de diferenças, uma normalização do prazer que abria as comportas da liberdade para outras conquistas sociais. O orgasmo para Reich e seus seguidores era uma espécie de vitória contra a burguesia. O sexo dos 60 era um comício; mas tinha o defeito de acabar com a culpa, com o limite, com o proibido. Todas as sacanagens foram testadas, mas chegou-se ao outro lado com uma vaga insatisfação. O que faltava? Faltava o pecado. Sem o pecado ficamos insuportavelmente livres.

Com a re-caretização do mundo nos anos 70 (o mundo gira com movimentos de vai-e-vem, como uma cópula) a liberdade aparente conquistada andou para trás. A desrepressão deu lugar à "des-sublimação repressiva", como nomeou Marcuse, uma "liberdade" tão ostensiva e grossa que é um louvor à proibição. Depois de Jimi Hendrix, tivemos os BG?s, depois de Woodstock, tivemos "Saturday night fever", depois de Janis Joplin, tivemos Olivia Newton-John. Os sonhos viraram produto. Criou-se um mercado da liberdade. Todas as conquistas dos anos 60 viraram fetiches de consumo: revolta, igualdade, utopias, até o desespero e a angústia passaram a vender roupas e costumes.

A partir dessa época até hoje, sob a aparência de grandes euforias narcisistas, de gestos e risos de prazer, há uma volta à caretice; no mundo de bundas e coxas lipoaspiradas, seios siliconados, bofes comedores, existe um regressismo oculto. O sexo, que prometia ser a democratização do corpo para todos (ohh utopias...) voltou a ter uma clara configuração "de classe". A anatomia virou uma das poucas portas de fuga da classe baixa. Com a democratização e a sociedade de massas, o sonho pequeno burguês de um orgasmo utópico foi apropriado pelos excluídos como uma saída para a miséria. Nuas, todas as mulheres são iguais; a democracia da bunda. Lembram-se da menina mendiga que tentaram transformar em modelo ou da moça do MST que foi para a "Playboy"? A bunda é a esperança de milhões de Cinderelas. A mídia e a propaganda compraram a liberdade, que não é mais "uma calça velha desbotada", mas é a superação do pudor, da intimidade. Se alguma mulher ficar famosa, tem de tirar a roupa. O strip-tease é a anti-burka, mas, no fundo, meio igual. A pessoa não tem mais um corpo; o corpo é que tem uma pessoa, frágil, tênue, morando dentro dele. De dentro dos maiores "aviões" de bumbum exposto, de seios balouçantes, de coxas frementes e atemorizantes, sai uma vozinha romântica, desejando amor e filhos, pureza e lar. O corpo e a pessoa são duas coisas diferentes; a menina mostra sua bunda como se fosse uma irmã siamesa. Tanta oferta sexual me angustia, me dá a certeza de que meu desejo é programado por outros, por indústrias masturbatórias, me provocando tesão para me vender satisfação.

Ninguém mais quer ser "sujeito": todos querem ser produtos. Ninguém quer ser livre, todos querem ser mais usáveis, consumíveis. O corpo tem de dar lucro. Todo mundo quer ser coisa. Ser "coisa" é melhor, não sofre de dúvidas, conflitos, humilhações. Queremos ser BMW's, aviões, lanchas de luxo, queremos ser desejados como um jet-ski ou um vestido da Daslu.

Arnaldo Jabor


Ao som de 'Amor e Sexo' - Rita Lee
Degustando Cereja com Creme de leite
Imagem: 'Amante' - Jorge Campanã Barranco




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terça-feira, 14 de março de 2006

O Ser Poeta

Poesia

Homenageio neste Dia do Poeta o amigo e poeta Avaniel Marinho

Ser poeta não é ser algo demais;
Ter algo demais não é escrever poesia.
Ser poeta não é saber escrever;
Ter escrito não configura maestria.

Ser poeta não é, simplesmente,
Ter decorado muitos versos na mente.
Ser poeta não é saber escrever poemas rimados,
Não basta escrever sonetos metrificados,
Pois ser poeta não é somente ser letrado.
Conheço muitos que escrevem,
Mas que nunca amou
E nunca foi amado.

Letras vêm e vão,
Mas poesia de verdade
Nasce primeiro no coração.
E, para isso, é preciso ser amado,
Estar sempre apaixonado,
Mesmo que não saiba o nome da paixão.

Ser poeta é ter nas mãos muitos sonhos,
É manufaturar realidade.

Para ser poeta é preciso, fundamentalmente,
Fazer da própria vida
A mais bela poesia,
Pois ser poeta não é cargo, nem função.

Ser poeta é estado(permanente) de espírito,
É estilo de vida,
-- Vida bela! --
Vista com os olhos sempre cristalinos,
Marejados de muita emoção.

Ser poeta é amar intensamente,
Ser poeta é ser simples...
Ser poeta é ser gente.

Ismael Alexandrino

Ao som de 'Se Todos Fossem Iguais A Você' - Tom Jobim
Degustando Capuccino de Chocolate com Avelã
Imagem: ' il Poeta' - Pablo Picasso

segunda-feira, 13 de março de 2006

A chuva e a saudade

Poesia

A chuva que cai lá fora
E jorra pela rua sem demora
Traz para a terra a umidade
E para mim o frescor.

A saudade que sinto agora
Justifica-se nesta hora
Por estar noutra cidade
O meu verdadeiro amor.

Ele no sul e eu no norte!
Por isso, nesta chuva vou me jogar
E deixar a saudade a chuva levar...

Quem sabe eu tenha sorte!
Então, quando a chuva se for,
Pousarei nos braços do meu amor.

Ismael Alexandrino

Ao som de 'Those Sweet Words' - Norah Jones
Degustando Água de Côco
Imagem: 'Janela de Casa' - Ismael Alexandrino



sexta-feira, 10 de março de 2006

Se o Sol explodisse

Ensaio

Se o Sol Explodisse... Imagine, meu amor, se ele se arrebentasse todo... milhões, zilhões de luzes pequenas, riscos tortuosos. Seria lindo , querida, seria bárbaro.

Um espetáculo sem ingressos, só para nós dois. Olha só quanto fogo ! que brilho ! Repare nas águas do lagos e veja os raios subindo, olhe para o sideral, como desaba em tochas, em flechas incendiadas.

Incandecido está todo o horizonte, brasas voando por todos os lados desenhando milhões de rosas-dos-ventos. Toda a terra se abala, todo o universo se comove. Até a lua cede e derrama sua prata sobre nós, voce e eu.

Este momento de ouro e prata seria nosso e eterno. Um casamento excêntrico de céu em chamas e samambaias por tapetes, avencas e bromélias por paredes, pendidas dos ipês e paus do charco. A sinfonia norturna em profundo silêncio, entregue ao delírio do descomunal incêndio.

E tu, linda, toda formosa, emprestando do teu brilho àquela fogueira celeste, me impondo um sorriso grande, me fazendo brilhar tambem.

Quero acreditar que os carvões e cinzas nunca estarão nesta quimera, mesmo porque tu ainda nem chegaste para vivermos este espetáculo.

Sílvio Sebastião

Ao som de 'Se' - Djavan
Degustando Leite Condensado com Morango
Imagem: 'Fios de luz' - Cláudia Pudell Rossi