Café Alexandrino - O lado aromático da vida

sexta-feira, 7 de julho de 2006

Férias, Inverno, Café e Livros

Indicações


Julho para muitos é sinônimo de descanso. Anseia-se pelas esperadas e merecidas férias. Em grande parte do país, faz um friozinho gostoso, com cheiro de café quente feito com grãos moídos e torrados na véspera. Tende-se ao recolhimento buscando o aconchego. Devidamente aconchegado, com tempo disponível e namorando o silêncio, é natural -- para os amantes da leitura -- a busca por bons livros.

Pensando nisso e na comodidade dos amigos, com a preciosa ajuda do escritor brasileiro Luiz Ruffato, o Café Alexandrino™ preparou algumas sugestões de livros que poderão ser lidos neste inverno.

Café Alexandrino™ ...a delícia de viver, promovendo o bem-estar e a cultura, indica:

- Dom Quixote de La Mancha
Miguel de Cervantes Saavedra, ed. Revan

Eleito em 2002 o melhor livro de todos os tempos, um feito nada desprezível para um autor de língua espanhola num mundo dominado pela cultura inglesa, a aventura criada por Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) está de tal forma incorporada ao nosso dia-a-dia, que nem nos damos mais conta de que nascem dele expressões como "quixotesco", "lutar contra moinhos de vento", "cavaleiro da triste figura", "fiel escudeiro"... Desde seu lançamento, em 1605, a história do sonhador Dom Quixote que sai pelo mundo em combate contra a "corrupção dos costumes" foi amada pelo público, a tal ponto que dez anos depois, em 1615, ganhou um segundo volume. O êxito desta paródia das novelas de cavalaria só tem crescido desde então - seja pelo seu humor, ora escrachado, ora sofisticado, seja pela extrema contemporaneidade de suas críticas à mediocridade e ao imediatismo. (Nas livrarias, o leitor se depara com várias edições: luxuosa, com ilustrações de Salvador Dalí pela Planeta; bilíngüe, em tradução de Sergio Molina para a Editora 34, ainda no primeiro volume; em dois volumes, pela L± ou em três, com ilustrações de Gustave Doré, pela Ediouro; em papel-bíblia, pela Nova Aguilar; ou a avalizada pelo Instituto Cervantes, ainda em primeira parte, tradução de José Luís Sánchez e Carlos Nougué, pela Record - além de adaptações para quadrinhos, cordel...).


- As Flores do Mal
Charles Baudelaire, ed. Nova Fronteira

Essa obra-prima da literatura universal foi sendo construída verso a verso durante toda a vida do francês Charles Baudelaire (1821- 1867). Talvez possamos sintetizar toda a preocupação de sua obra no primeiro e último versos do primeiro poema do livro, intitulado "Ao leitor", em que Baudelaire assinala as suas preocupações principais, "a tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez" e conclama-nos, "hipócrita leitor, meu igual, meu irmão", a vencer o "monstro delicado" do Tédio. Ao longo de quase 700 páginas, magistralmente traduzidas por Ivan Junqueira, vamos nos surpreendendo pela sua capacidade de percepção da modernidade - o "eu" lírico que deixa de cantar o herói para se encantar com o anti-herói que somos todos.



- Livro das mil e uma noites
Anônimo, ed. Globo


À parte a importância para o imaginário ocidental das edições Galland (francesa) e Burton (inglesa), pelas quais o leitor brasileiro teve acesso a esse clássico da literatura árabe, agora se sobrepõe a tradução de Mamede Mustafa Jarouche, direta do original, cujos dois primeiros volumes ("ramo sírio") acabam de ser publicados. Mesmo quem nunca leu conhece o enredo do cruel rei Sahriar (Xahriár) que, traído pela esposa, perde a confiança no gênero feminino e, para aplacar sua revolta, casa-se a cada dia com uma mulher diferente, que condena à morte na manhã seguinte. Até que Sarãzãd (Xahrazád ou "Xerazade") se propõe a acabar com o morticínio, por meio de uma sofisticada artimanha: na noite de núpcias inicia uma história que, devido ao adiantado da hora, não pode acabar, obrigando o monarca a conceder mais tempo para terminá-la, e as fábulas se sucedem, noite após noite, até estancar o ódio do seu coração.
Leia mais aqui Adquira o livro


- As Crônicas de Nárnia
Clive Staples Lewis, ed. Martins Fontes

As Crônicas de Nárnia são uma série de livros infantis escrita por C.S. Lewis que conta as aventuras que ocorrem em uma terra fictícia denominada Nárnia. Nesta terra animais podem falar, criaturas mitológicas estão em todo lugar e o bem combate o mal. As histórias contém aspectos do Cristianismo apresentadas de forma sutil juntamente com algumas idéias do autor. Um dos personagens mais importantes da história, o leão Aslam, representa Jesus Cristo, está presente em todos os livros ao longo da série.


- Crime e Castigo
Fiódor Dostoievski, Editora 34


Publicado em 1866, é, dentre a vasta obra do russo Fiódor Dostoievski (1821-1881), uma das mais conhecidas. Dividido em duas partes, a primeira conta a história do pobre estudante Raskólnikov pelas ruas de São Petersburgo, cidade-síntese de toda a Rússia czarista, na qual convive com a miséria física e moral de sua época. Influenciado por estranhas idéias místicas, assassina duas mulheres para roubar jóias, confessa o crime e é condenado ao desterro. A segunda parte transcorre nas paisagens geladas da Sibéria, onde, por meio do castigo, Raskólnikov busca a redenção. A tradução, direta do russo, é de Paulo Bezerra.


- O Som e a Fúria
William Faulkner, ed. Cosac Naify


Prêmio Nobel de Literatura de 1949, William Faulkner (1897- 1962) radicaliza, nesse romance de 1929, seu processo narrativo, buscando penetrar no recôndito da alma atormentada de seus personagens, membros da decadente família de brancos escravocratas do sul dos Estados Unidos, os Compson. Aqui, as quatro datas (blocos) em que se divide o romance - 7 de abril de 1928, 2 de junho de 1910, 6 de abril de 1928 e 8 de abril de 1928 -, mais que demarcar o tempo, servem para implodi- lo, expondo com profunda originalidade os segredos e as culpas de uma sociedade violenta e cruel - numa magistral tradução de Paulo Henriques Britto.
Leia mais aqui Adquira o livro


- Grande Sertão: Veredas
João Guimarães Rosa, ed. Nova Fronteira

Monumento da língua portuguesa, que neste ano completa 50 anos de publicação, esse romance pode até ser lido como uma história de jagunços no interior de Minas Gerais -- e até mesmo pode ser considerada "obra regionalista": a genialidade de João Guimarães Rosa (1908-1967) impõe a multiplicidade das leituras. Uma delas, com a qual mais me identifico: Grande sertão: veredas é a narrativa da institucionalização da violência no Brasil, através das memórias de Riobaldo Tatarana.
Leia mais aqui Adquira o livro

Ismael Alexandrino

Ao som de 'I've Got A Crush On You' - Rod Stewart
Degustando Café Preto
Imagem: Logomarca do Café Alexandrino?

quarta-feira, 28 de junho de 2006

Esporte e Violência: uma combinação nada perfeita

Redação Dissertativa


A mídia já veiculou várias matérias referentes à violência dentro dos estádios de futebol, esclarecendo que, se nesses locais houvesse maior segurança e reinasse a paz, os clubes poderiam lucrar quase 50% a mais do valor atual, sem falar que muitas famílias que só não freqüentam tais ambientes por medo dos inúmeros atos violentos que assumiram a cotidianidade do normal poderiam ali encontrar um entretenimento.

E ontem, em plena Copa do Mundo, quando se espera o mínimo de respeito, quer por quem joga, quer pelos torcedores e telespectadores, Portugal e Holanda deram um "show"... De pancadaria.

Pensando nesse tema de suma importância, resolvemos elaborar uma redação dissertativa acerca da intrigante questão:
o esporte, e enfaticamente o futebol, contribui para desenvolver a amizade ou a rivalidade entre os povos?


O esporte, desde os tempos clássicos, sempre teve como escopo o congraçamento entre os povos. Nutrir uma mente sã num corpo sadio era notável ideário que contribuía para o melhoramento das raças (ou de uma única raça, a humana, como preferem alguns) e união de todos. Contudo, hodiernamente, se assiste a competições esportivas que têm propiciado um triste clima de violência, quer por desavenças partidárias, quer por intrigas políticas, quer por picuinhas pessoais.

Nesse sentido, vive-se a época da banalização da violência. No decorrer de eventos internacionais, por exemplo, é comum o confronto hostil dos atletas que guardam sentimento de rivalidade pelos mais variegados motivos. Parece estar em jogo a superioridade econômica ou histórica dessas nações.

Mas não apenas em nível mundial se torna evidente essa disputa inferior e antiesportiva. O mesmo espírito de guerra é encontrado entre os pequenos e grandes clubes nacionais. Ninguém desconhece o fenômeno das torcidas organizadas, verdadeiramente beligerantes dentro e fora dos campos de competição.

Ultimamente, esse espírito agressivo filiou-se ao esporte de modo regional e universal. Não raro, aqui e acolá eclode uma contenda entre jogadores ou torcedores ou, ainda, entre ambos. A brutalidade, a estupidez e a incivilidade ganham proporções absurdas, de tal sorte que os mais exaltados, muitas vezes, são presos ou mesmo mortos a pauladas e a tiros.

A contrario sensu, é relevante que se registre o fato de que o exercício do esporte também propicia momentos "harmoniosos" e de relativa paz. Recentemente, em 2003, palestinos e israelenses compartilharam juntos (pasmem!) do jogo "Brasil versus Inglaterra" em considerável tranqüilidade; entretanto, é bem verdade que, após este, cessou-se a calmaria, a concórdia.

É deveras lamentável, pois, que um ideal inicialmente tão nobre inverta-se em páginas de violência e crônicas policiais. Quando não domina a emoção, o homem é capaz de regredir ao nível dos irracionais. E, nesse calor, queima-se toda razão e fenecem os ideais mais salutares.

Yuri Monteiro Brandão


[1] Este texto foi publicado no Blog Cultural Textos & Contextos, pertencente ao autor.
[2] Yuri Monteiro Brandão, aos 22 anos, está acadêmico do 4º ano de Direito da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), estudante de Filosofia e Línguas (latim, grego e italiano) do Seminário da Arquidiocese de Maceió, ex-secretário de finanças do Diretório Central dos Estudantes Zumbi dos Palmares, ex-monitor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do Impacto Curso, tradicional curso pré-vestibular da capital alagoana, ex-trainee jurídico por Motta e Soares Advocacia & Consultoria, ex-colunista do jornal Primeira Edição e colunista do "O Jornal". É também parceiro do "Amigos do Livro", do Grupo Editorial Scortecci, e colaborador do site Releituras, seção "Novos Escritores".


Ao som de 'É uma partida de futebol' - Skank
Degustando Chá Mate com Rosquinha Frita
Imagem:

terça-feira, 13 de junho de 2006

Com licença, vou amar...

Crônica









Em tempos hodiernos, muito se fala sobre o amor. Pouco amor se vive. É tema bonito, politicamente correto, alimenta o comércio, é letra de música em diversos ritmos, mas poucos -- poucos! -- têm o privilégio de vivê-lo de forma integral.

Viver o amor não é fácil. Exige renúncia, condicionamento, disciplina, esmero, doação. Viver o amor demanda, inclusive, tempo. Ah!, mas tempo é dinheiro, diriam alguns. Tudo bem, mas não há dinheiro no mundo que consiga comprá-lo. Amor não é dinheiro, seu valor é outro, muito acima de coisas compráveis, mesmo as que, supostamente, são bens duráveis.

Já ouvi dizer que sou sonhador demais, que vivo fora da realidade, que chego a ser besta, careta, pois amor não existe. Amor entre um homem e uma mulher, segundo os que ousam teorizá-lo nos bares da vida, não passa de tesão, ou melhor, ereção. O amor, neste caso, terminaria com ejaculação. Fico pensando quão seria efêmero se fosse assim. Já pensou nos que têm ejaculação precoce? E os brochas impotentes? Coitados! Estes, com certeza, nunca amariam ou seriam amados. Fidelidade coexistir com amor então, aí já é pedir demais. Para muitos -- quase todos --, é a utopia máxima que, porventura, possa existir.

Seria eu o utópico em pessoa? Não! Não mesmo! Sou um privilegiado, admito. Sou um dos únicos, sou um dos últimos. E o meu amor, no sentido de alma gêmea, ter uma pessoa amada, não é genérico. Meu amor tem nome, registro de nascimento e endereço fixo. Responde pelo nome de origem francesa "ILA", e guarda em seu significado "ilha". Não porque seja cercada de água por todos os lados, mas talvez porque ela seja cercada pelo meu amor por todos os lados e de todas as formas possíveis: eros, frater, philos, ágape.

O amor existe sim e não me interessa quem o desacredite e me veja como um sonhador ufano. Sou sonhador mesmo, pois tenho inúmeros motivos para sonhar, para viver, para regozijar naquilo que me foi concedido de graça. Não me importo em tentar definir o amor, muito menos criar uma cartilha de ditames. Ele não é teórico, é puramente prático e só se aprende amando. Importa-me, tão somente, senti-lo e vivê-lo, pois ele existe.

Com licença, vou amar...

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Você é linda' - Caetano Veloso
Degustando Romeo e Julieta
Imagem: Presentes que ganhei no dia dos namorados

terça-feira, 6 de junho de 2006

O Pescador de Sonhos

Para ler em silêncio, desligue a Rádio do Café no menu à direita.

Conto


Todos diziam agora que Roberto era um homem diferente. Mas não era por nada que se apercebesse pela estética ou por qualquer coisa do tipo, mas sim por seu comportamento. Freqüentemente Roberto saía bem cedinho em seu barco dizendo que ia pescar. Passava o dia todinho em alto-mar e só voltava ao final da tarde. O que era estranho é que Roberto não voltava mais da pescaria com um peixe sequer. Como Roberto antes era tido como um dos melhores pescadores da vila, chamavam-no até de "o farejador de peixe", todos começaram a estranhar essa súbita "maré baixa" de Roberto.

Paralelamente à maré baixa de Roberto, ele começou a se apresentar estranhamente mais alegre. Antes sempre duro, bruto até, poderia-se dizer que agora Roberto sorria abertamente para todos os lados. Era freqüente ao retornar da pescaria, sentar-se um pouquinho e contar algumas "histórias de pescador" para as criancinhas que sempre circulavam pela marina ao fim da tarde. Elas o ouviam atentamente e tinham um carinho todo especial agora por aquele 'pescador diferente', como elas o chamavam. Até mesmo em casa, Dona Maria, sua esposa, o achou estranhamente mais comunicativo, dando mais atenção à família e aos filhos, de quem antes sempre mantivera certa distância.

Ninguém sabia o que tinha acontecido a Roberto para ele agora se portar daquele jeito. O tempo foi passando e alguns comentários foram surgindo. Seu Zé da mercearia achava que aquela 'maré baixa' de Roberto era coisa da idade que ia chegando e a habilidade que em conseqüência estava indo embora. Pedro de Cida, freqüentador assíduo da Bodega do Joaquim, dizia que ele estava ficando era louco, por isso não sabia mais pescar. Seu Joaquim, por sua vez, dizia que aquilo era sim coisa do demônio, que ele devia era ter mexido com o que não presta para estar com esse azar. Dona Maria, entretanto, não pensava em nada disso, em nenhum momento tentou entender o que tinha acontecido com seu marido, só começava a se angustiar com o dinheiro que estava indo embora e nada de o marido voltar ao normal. Mas, certo dia, após repensar todas essas idéias que ouvia sobre seu marido na rua, ela não agüentou e disse:

- Ô homem, o que é que tu tem que tu num volta mais com peixe das tuas pescarias? Tu arrumasse outra família e tas levando o peixe pra eles é? Num tá vendo que o dinheiro já não esta dando nem pra comprar comida?

E Roberto respondeu calmamente:

- Maria, eu sei que a situação tá engrossando, mas tenho fé que tudo vai passar e melhorar.

- Melhorar como se tu num pesca mais nada? Ou se o que tu pesca tu tá levando pros outros?

- Maria, não sei se você percebeu o quanto eu mudei de uns tempos pra cá. Em nenhum momento você chegou pra conversar comigo ou me questionar. Preferiu juntar tudo e explodir de vez com essa mágoa, me julgando e me acusando como você está fazendo agora. Foi por isso que não notou que todos os dias eu saia com meu barco não com redes de pesca, mas sim carregado de tabuas. Essas tábuas, Maria, era para construir o meu sonho, um sonho de uma vida melhor para a gente, era para construir um grande cercado de peixes onde pudéssemos ter sempre uma grande criação e tirar nosso sustento sem depender da maré que está cada dia pior. Então, Maria, eu não estava louco, nem possuído por má sorte do demônio nem muito menos sustentando outra família como vocês pensaram. Eu estava apenas acreditando nos meus sonhos. Mas em nenhum momento você parou para perceber isso, preferiu interpretar as coisas do seu jeito, somar com as interpretações maldosas dos outros e aproveitar algum momento de mágoa ou rancor pra jogar tudo isso na minha cara, mais preocupada em me agredir do que em me ajudar ou me entender. Mas não a culpo por isso Maria, infelizmente estou acostumado com essas coisas, é assim que acontece com a maioria das pessoas. Quer saber Maria, pode até ser que o cercado que eu esteja fazendo não dê certo, mas eu só lhe peco uma coisa Maria: nunca queira me tirar o direito de sonhar.

Roberto foi dizendo isso enquanto levantava seus olhos e os voltava em direção ao mar, em um misto de reverência e fascinação.

Ricardo Gurgel


Ao som de 'Amanheceu, peguei a viola' - Almir Sáter
Degustando Chá de Menta com Chocolate
Imagem: 'El Pescador' - Alfred Rogoway

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Enquanto isso, meu primeiro amor

Para ler em silêncio, desligue a Rádio do Café no menu à direita.

Ensaio


Estou deitado de lado com a mão na cabeça contemplando teus olhos verde-azulados. Nada me parece tão singelo quanto a profundidade do teu olhar. Já faz horas e horas que estou assim a admira-la. Se Auguste Rodin me visse desta forma, talvez pintasse um novo quadro. Quem sabe intitulado de "O Admirador". Se da Vinci visse tua silhueta e teu sorriso, talvez ousaria pintar o irretratável. Pode ser que nomeasse a tela de "A Nona brisa".

De fato pareces uma brisa do mar. Não necessariamente vista, mas sempre sentida. Consegues envolver as figuras na praia sem mesmo que estas, muitas vezes, notem. O fato é que consegues emoldurar o cenário. As ondas seguem o teu ritmo, os cabelos se esvoaçam, a areia fica na iminência de levantar e partir. É incrível como és capaz de esculpir o teu entorno. Onde tocas, modificas. E uma vez modificado, nunca mais torna a sê-lo como era antes.

Quando me tocaste a primeira vez, lembro bem, fora-me algo bastante peculiar. Algo parecido como o primeiro amor: idealizado e cantado por muitos, mas que poucos conseguem tocá-lo, senti-lo, vivê-lo. Naquela posição que eu estava, estático, pensativo, reflexivo, admirado, nada mais era do que um ser enternecido diante do seu amor, do primeiro amor.

Ah se eu fosse um poeta! Certamente, fazer-te-ia a mais bela poesia. Como não sou, faço-te o meu próprio poema. Admiro a beleza estética, a métrica e a rima, mas toco a alma extraindo dela a essência. Quem dera, eu fosse um romancista! Transcreveria nossos passos nas páginas de um livro tão bem como Shakespeare escrevera Romeu e Julieta. Mas, isso também não é especialidade. Então faço da nossa vida um best-seller recheado de capítulos de amor tão bonitos e singulares que nem o melhor dentre os escritores conseguiria descrevê-los. Se eu fosse um cantor, talvez eu comporia uma música especial. Como não nasci com este dom, faço-te a minha letra principal. Tocando seu corpo que mais parece um refinado violão, componho a mais bela melodia já vista. Canto-te como minha mais bela canção. Se eu fosse um maestro, sem dúvidas regeria sua vida. Contudo, prefiro reger os teus passos em minha direção. Sempre. E quando chegas até mim, peço que o faça repetidas vezes -- uma partitura recheadas de ritornelos. Se fosse um ator, meu maior desejo seria contracenar contigo. Como também não o sou, opto por fazer contigo o meu par romântico no palco da vida.

Nasci assim...à primeira vista, meio que sem dons especiais. Simples como o amor. Contudo, ao teu lado, nunca deixarei de procurar o tom. Mas farei deste tom algo incomparável, almejado, único, singular, intangível, sus generis. Regra de fé e prática. Amar-te-ei com a singeleza e a devoção de primeiro amor que és e que para toda vida há de sê-lo. A tua felicidade será o meu objetivo. A minha vida será o veículo. A nossa vida será o caminho. E que este possa sê-lo sempre completo, porém simples, assim como o amor. Pois ao teu lado, sentindo o teu amor, consigo ter a certeza que é na simplicidade que a vida floresce.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Contra o tempo' -Vander Lee
Degustando Chocolate Quente com Granulados Coloridos
Imagem: 'Woman Reading' - Pablo Picasso

terça-feira, 30 de maio de 2006

O Jardim dO Poeta

Para ler em silêncio, desligue a Rádio do Café no menu à direita.

Poesia


Já te disse "O Poeta" que, se não fosse
A tua condição de anjo, ele se anularia como tal.
Refleti por muito tempo acerca desta condicional
Da qual dou fé e hoje posso compreender muito bem.
Inequivocamente, tu és o anjo do anjo do bem
Mesmo que tentem descrever-te, adjetivos não conseguirão.

De certo, te encontras na linguagem transcendental:
Envelo poético nos últimos versos dos versos de Salomão.

A imagem que me passas vai muito além de uma flor.
Lânguido, teu cálice feminino parece mui frágil;
Formoso e protegido és de fato, mas incapaz de espinhar alguém.
Acomoda em tua corola uma verdadeira coroa majestosa,
Zona apical em que reside, sem dúvida, seu brilho, seu maior encanto.
Encanta-se quem tem o privilégio de conviver em tua presença!
Mas, sinceramente, questiono se és simplesmente uma flor.
A não ser que eu esteja enganado, em ti reside todo um jardim:
Símbolo de beleza, fortaleza em harmonia, candura, felicidade, amizade e amor.

Ismael Alexandrino

Ao som de 'Song for Elizabeth' - Jonathan Butler
Degustando Café Expresso com Raspas de Chocolate
Imagem: 'Lavandas a Buis' - Daniel Girault

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Fui buscar o kit do amor

Para ler em silêncio, desligue a Rádio do Café no menu à direita.

Poesia


Princesa, passei na morada dos sentimentos;
Por alguns momentos, contemplei a sua beleza.
Lá conversei com meu coração
E ouvi uma canção que me emocionei.

Nela você cantava o amor que tem por mim;
Aquilo tocou muito profundo, minha princesa.
Quanto amor, quanto carinho, quanta delicadeza!
Confesso que fico bobo sendo amado assim.

Mas não há o que se importar com tal bobeira
Pois nosso amor não deve satisfações,
Não arde em ciúmes, não esbarra em contradições
Não é nada da boca para fora, não é brincadeira.

Um dia, meu amor lindo, vou te levar nesse lugar
Onde não existirá o tempo, mas apenas o momento.
Lá não existe ganância, angústia, inveja, desalento,
Lá reina a paz e é onde escolheremos para amar.

Nunca mais passearei por aquela morada sozinho
Levarei você, minha namorada, e lá faremos nosso ninho.
Amaremos noite e dia, amaremos segundo e hora
Amaremos sem porfia, amaremos de dentro para fora.

Mas minha passada por lá não foi em vão!
Trouxe muita coisa que está dentro do coração...
Trouxe para você um kit de ternura.
Nele só há contentamento, não há amargura.

Vem acompanhado com um beijo carinhoso
Bem delicado, molhado e gostoso,
Vem aquecido na temperatura ideal
Para não causar resfriado, nem queimadura de 3° grau.

Vem com uma mordidinha para ser dada na nuca
Vem com um sussurro para te deixar maluca,
Um sussurro eloqüente no silêncio mordaz,
Que te traz contagiantes arrepios e te satisfaz

Vem com um afago doce e um abraço justo...
Tão justo que pode fazer o coração levar um susto
Com medo de ser atropelado...
Mas que logo passa por se sentir amado.

Vem um carinho que te faz perder o juízo
Vem alguns gestos lindos, todos eles de bom siso
Vem com um afeto muito hábil
Que transforma qualquer erro em algo passageiro, lábil.

Vem um baú de respeito mútuo muito bom,
Vem palavras de afago ditas em alto e bom som,
Vem uma bolsa de respeito pelo próximo como abono,
Vem, inclusive, uma plaquinha escrita que você tem dono!

Vem tudo isso, minha princesa, e algo mais.
Mas quero te levar lá quando passar a dor
Pois quero que sinta todo o meu amor.
Far-lhe-ei tudo e, mesmo assim, nunca será demais.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Amar é' - Roupa Nova
Degustando Leite Gelado com Chocolate
Imagem: 'Sonhos de uma Viagem' - Lúcia Hinz