Café Alexandrino - O lado aromático da vida

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Você, minha ilógica

Poesia


Gosto, e como gosto!, das tuas insuficiências.
Tolos são os que não te compreendem
Todos néscios, literais
Incapazes de abstrair
............... .[teu significado mais intrínseco.

Mas é aí que mais te gosto.
Quando percebo, por entre esta ligeira entranha
................................................[de largos dentes,
Uma doçura de voz que aplaca minha ira
E me tira do tédio, do tédio, do tédio.

Por que as vezes te incompreendo?
Não sei. Confesso.
A bem da verdade, eu sei.
Sei, sei sim. Mas não confesso.
Dói-me, nisto, parecer com os
..........................[que te fatigam.

Não te mereço, não mereço mesmo.
Não me mereces também, não mesmo.
Mesmo assim, te quero
Justamente por não te merecer.
Pois, d'outra forma, eu a teria como
............................[justa recompensa
E o amor perderia o seu encanto.

Mas assim -- não te merecendo --,
Terei-a como dádiva.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Dona' - Roupa Nova
Degustando Morangos com Leite Condensado
Imagem:'Ila e Ismael (Tinta Nanquim)' - Ismael Alexandrino

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Passarinhando

Poesia

Bem-te-vi no vitral da casa amarela
Bem-que-se-quis cantar como ele.
Ironia: tu -- presas e com frio --
Nunca cantarias com tanto vigor.

Só canta -- e sempre canta! --
quem voa entre as nuvens.
Só voa -- e sempre voa! --
um ser reconhecidamente alado.

Mas tu vives engaiolada,
amarrada a uma tornozeleira metálica,
carregando um pesado anel de ouro (seu fardo)...
além de teres pesados ossos não pneumáticos.

A despeito disso, ainda me perguntas
....................[com ousadia e esperança:
"Posso voar para o teu ombro?"

Ao que respondo com gracejo:
Se não me fores peso
como seus metais o são para ti,
Posa em meu ombro, Cotovia,
E canta meio-tom acima
para que todos notem tua siringe afinada
domesticada nos coqueiros tropicais.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Valsa para uma menininha' - Toquinho
Degustando Petit Gâteau com Sorvete de Creme
Imagem:'Eastern meadowlark in box' - Craig van der Lende

domingo, 26 de agosto de 2007

O amor não tem idade

Poesia

Do tempo que fui velho
poucas lembranças guardo.
Fumei muito cachimbo
e entortei a boca

entortei o braço

entortei o passo

e até o pensamento.

Fedia fumo

usava bengala

pé no chão

e um chapéu velho,

que era pra esconder
meus pensamentos entortados.

Pensei tanta besteira

cometi tanta leseira

esquecia-me do outros e até de mim.

Fui parar num asilo.

E lá conheci Dona Tortinha
-
brincalhona que só ela,

mais esquecida do que eu.

E no asilo, meu filho,
muitas cabeças brancas dão as mãos
debaixo das bandeirolas coloridas de São João.
E aí tem muitas brincadeiras de roda,

cirandas, rela-bucho e pé de serra.


Só sei, meu amigo,

que Dona Tortinha e eu

- dois velhinhos esquecidos -
demos as mãos
e nos esquecemos assim até hoje.

E de tanto brincar,
- tortos para o mundo,
certos para nós -
viramos crianças,
e, juntos, adolescemos
no fim da tarde.

Dizem por aí que esclerosamos...

Duvido muito, sabe!?


Ismael Alexandrino



Ao som de 'Andante' - Chopin

Degustando Café Expresso

:'Sempre juntos' - Flávio Moura

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Paradoxo Nacional

Ensaio

“Art. 1º - Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.” (Lei nº 7716 de 1-05-1989).
Seria irônico pensarmos que, se as leis fossem deveras cumpridas no Brasil, poderíamos punir o Estado. As cotas universitárias para negros são uma prova de auto-inferiorização dos mesmos em relação à raça de linhagem branca. Tais vagas oferecidas funcionam como um paradoxo ao que é pregado no dia 20 de novembro, dia da consciência negra.

Ao ingressarem no curso superior sem haverem tido formação intelectual que os capacitem, os indivíduos negros podem não possuir habilidade de construção de opinião. Poderá manifestar, também, deficiência em suas visões tecno-científicas. Da mesma forma, podem não ter aptidão para argumentar e, provavelmente, nunca passaram por um grande desafio do conhecimento: o vestibular. De tal maneira, tais fatores podem desembocar em falta de interesse por parte do universitário negro que se aproveitou das cotas. E há o fator que faz com que o negro, mal preparado, não consiga acompanhar as aulas do 3º grau.

Processo quase exclusivo no planeta, o vestibular brasileiro, que é imparcial quanto à seleção (quando não há fraudes), se torna publicamente falho ao favorecer alguns. Na hora de ser beneficiado, todos querem ser negros e coitados. E há aqueles que se denominam “quase negros”, e que insistem em ser negros, apenas para aproveitar a entrada fácil.

O país do futebol dá mais motivos para ser visto externamente com maus olhos, por ter, para seu sistema educacional, medidas meramente paliativas (e péssimas) ao invés de erradicantes.

O branco, na maioria das vezes, tem oportunidades de desenvolver melhor seus estudos e, assim, atingir uma certa vantagem. Para corrigir o problema, não se deve dar manutenção à universidade, e sim investir no início da formação de um cidadão: o de base. Quando beneficiados os sistemas de ensino infantil e fundamental, o negro não mais necessitará de cotas e de ser coitado. Reduz-se então, paulatinamente, mesmo que a longo prazo, a medida de cotas, diminui a exclusão e equipara os candidatos ao profissionalismo.

A medida desleixada tomada pelo Governo pode fazer com que o mercado elimine os estudantes de cotas automaticamente, de forma cruel e darwinista, gerando desemprego. Isto não é preconceito, senão fatos com lógica e racionalismo, uma vez que se quer iniciar uma carreira a partir do nível avançado. Os negros não são, portanto, beneficiados, mas sim vítimas da hipocrisia social.

Gabriel Carvalho1


Ao som de 'All That You Have Is Your Soul' - Tracy Chapman
Degustando Café Preto com Raspas de Chocolate Branco

Imagem:'Man filling out bank deposit slip' - John-Francis Bourke

Gabriel Carvalho1, meu querido sobrinho, faz 2º ano do Ensino Médio no Colégio WR, em Goiânia-GO.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Mal(e)dito

Crônica


Tem gente que adora falar da vida alheia. Eu também. Só que procuro me conter. Tento ao máximo evitar a maledicência. O Livro Sagrado até ressalta que o homem que consegue dominar a própria língua, este homem é perfeito. Mas eu não sou perfeito. Que bom! Assim sinto menos peso em meus ombros tão fortes,e tão humanos.

De vez em quando é bom falar da vida alheia, é uma forma purgativa de auto-afirmação. Vomita-se comentários de que o outro não é tão bom quanto parece por isso e por aquilo, e que você -- que consegue fazer uma crítica "imparcial" -- é o tal, a penúltima coca-cola geladinha no deserto. Digo penúltima, porque a última é o seu amigo que te ouve e concorda euforicamente. Carlos Heitor Cony tem até uma crônica que fala sobre isso, o gosto por falar mal das pessoas somente por falar.


Lá no Livro Sagrado, no mesmo texto que menciona a língua, também tem uma interessante metáfora, a de um navio gigante que é controlado por um pequeno leme. Da mesma forma, o corpo humano, gigante que é, é controlado pela língua, minúsculo órgão, um pequeno leme que dita caminhos e descaminhos.


Comentar sobre alguém é algo natural, próprio do ser humano. Mas é fundamental cuidar para que o "comentário" não seja destruidor da moral do outro. Caso este outro realmente não tenha moral, esta falta será percebida por todos. Sendo assim, torna-se dispensável trazer tal fato à tona, reafirmá-lo.


Quem se envolve e gasta tempo falando de alguém moralmente duvidoso equipara-se a este. E quem se envolve e gasta tempo falando de alguém moralmente aprovado é uma pessoa moralmente duvidosa. Pois está tentando destruir uma moral, matar o outro socialmente e psicologicamente. Está tentando matar o seu irmão-humano... não com facas e pistolas, mas, caprichosamente, com a própria língua.


E isto, matar alguém --principalmente um irmão --, além de ser muito feio, não tem nada a ver com amar o próximo.


Ismael Alexandrino



Ao som de 'Maneiras' - Zeca Pagodinho

Degustando Tequila com Melancia
Imagem:'Woman wearing evening gown, carrying applo and knife, mid section' - David Stuart

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Dicionário Educado

Curtas

Quando alguém olha para você e estende aquele dedo do meio, ele está querendo dizer: "Escuta aqui, você não é mindinho, não é o fura-bolo e, muito menos, o cata-piolho! Você é o maior de todos, amigão!!! Você é o maior de todos!!!"

Rita Apoena1


Ao som de 'Manoel' - Ed Motta
Degustando Amanditas


Rita Apoena1 é poetisa.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Temporal

Poesia

O vento é vento
Até que chove.
E aí inundam-se
Os meus pensamentos
Umidifico os olhos
Perco a leveza
Paro de voar
E me afogo.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Red Dust' - Iron & Wine and Calexico
Degustando Vinho Tinto Seco, o Chileno Viña Carmen
Imagem:'A praia' - F. Monteiro