Café Alexandrino - O lado aromático da vida

domingo, 14 de junho de 2009

Conselho de amor

Poesia

Fica em silêncio,
Fica!
Fica bem quietinha
No seu canto
Direito

Da nossa cama
Estreita
Deitada aqui
No meu peito.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Sailing' - Rod Stewart
Degustando Bis
Imagem: 'A flor paquerando o broto' - Ismael Alexandrino

Nada

Crônica

Às vezes é mesmo nada. Somente melancolia e esperamos que as pessoas parem de perguntar “O que você tem?”, mas ninguém nunca acredita em “nada”. Às vezes é somente aquela saudade do que não foi, do tanto trabalhado para chegar a lugar nenhum, dos planos que deram para trás e dos que foram em frente, mas por caminhos inesperados. Às vezes é tudo, tão tudo que acaba sendo nada. É aquela sensação de flutuar numa nuvem cheia de pensamentos incompreensíveis que confundem suas intenções e apagam sua vontade. Às vezes é somente nada e a cada vez que nos perguntem “O que você tem?” vem essa obrigação de ser alguma coisa e mergulhamos em nós mesmos em busca de respostas que simplesmente não existem. Às vezes é somente nada.

Andréa Cuca¹


Ao som de 'Por você' - Frejat
Degustando Pão com Presunto
Imagem:'A garrafa que morreu na praia' - Ismael Alexandrino


¹Andréa Cuca é cronista, contista e blogueira.

sábado, 13 de junho de 2009

Detalhes do horizonte

Crônica


Ela desenha cenários no vazio. Mágica! Pensamento flutuante, sem habilidade para materializá-los, sonho-os. Poeta.

Haveria colinearidade nos traços de pensamento? Abcissas, ordenadas, catenárias distribuindo forças, dando formas, edificando. Interrogações, exclamações, reticências aliando forças, dando sentido, poetizando.

Cada qual com a sua arte, seguem vivendo mundos distintos, porém tão próximos. Mundo de construções, projetos; mundo de imagens, devaneios. De súbito, comenta-se que o dia é curto, o tempo urge. Pacificamente, percebe-se que o dia é suficiente para as prioridades.

Mas, e as insuficiências? Abstraio-as. Modifico a realidade, corro atrás do instante perdido, vasculho a memória, tento projetar. Não consigo. Só enxergo o hoje, o agora, este momento que já não existe mais. Fugacidade, efemeridade, tudo isso me circunda, tenta me abraçar. Perderei a vez, então? É isso que me resta?

Duvido muito. Duvido da história, dúvido deste seu futuro posto nesse papel quadriculado. Só não duvido de nós dois.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Que nem maré' - Zigo Aguiar
Degustando Coca-cola Gelada
Imagem: 'En la orilla' - Jose C. Lobato

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Meu último Verso

Poesia

Nunca imaginei que engasgaria
Com meu próprio verso.
Meu mais belo verso.
O único
Perfeito
Verso.

Mas ele não desce
Constringe o peito
Fluído, reflui
Vaza olhos abaixo.
Olhos negros meus
Vazios, perdidos na escuridão
Sem rumo.
Diferentes dos brilhantes
Verde-azulados seus
Cheios, vivazes
Cheios de horizonte.

Sem forças para contrapor,
Desfaleço-me em meu leito vazio
Bege, vermelho e preto.

Lembrar do seu sorriso doce
Da sua tez alva e macia
Suas madeixas de carvão
Faz me brotar sorriso
Precordialgia
Pesar
Paixão
E sonhos.

Sonhos são importantes.
E ainda os tenho.
Adormecidos, deveras.
Intactos, no entanto.
Todos.
Tolos alguns, de fato.
Mas, meus. Seus. Nossos.

Inerte, não tenho mais versos.
Lúgubre verbo desconjugado no presente
Aquele presente raro se afastou de mim.

Meu Verso saltou da minha Poesia.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Mais uma vez' - Jota Quest
Degustando vácuo
Imagem: 'Lilás e azul' - Álbum de fotografia

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Você é forte

Vídeo

domingo, 5 de abril de 2009

Alquimia naval

Crônica

Acabara de ressuscitar uma paciente, quando sou chamado pelo rádio no pátio do hospital. Meu irmão, também médico, noticia-me que eu havia sido convocado para servir a Marinha do Brasil. Sinceramente, não sabia o que lhe dizer. Não verdade, não tinha o que dizer. Secou-me os lábios, minha fronte espontaneamente abaixou. Silenciei-me.

Atento e disposto, fui recepcionado por semblantes carregados, com pouco humor, hostis até. “Disciplina e Hierarquia são a base da nossa organização” –, bradavam. Sempre fora extremamente disciplinado; sempre respeitara hierarquias. Minha adaptação seria tranqüila, pensei. Ledo engano! Queriam mais: queriam aprisionar o meu espírito num grande corpo, diferente do meu. Amante da arte de fazer viver, agora deveria me preparar para a guerra, onde a morte – paciente – espera os audazes. De Poeta da Vida a combatente de guerra, de médico a Oficial Militar. Meu espírito livre deveria se transformar em espírito de corpo, saltar num abismo desconhecido e se unir a outros que juraram, outrora, dar a própria vida pela Pátria. Mais que transcendência; uma transmutação.

A idéia de militarizar-me chocava com quaisquer aspirações pregressas. Não por alguma tendência rebelde (não as tenho), mas talvez pelo medo de me despir do indivíduo, de me robotizar, tornar-me apenas mais um oficial rígido de coração e cérebro petrificados, tão somente cumpridor de infindáveis normas, e que sobrevive do Estado e para o Estado.

A tempo, descobri que a rigidez mórbida do mastro de um navio comporta a maleabilidade plácida de uma flâmula. E a flâmula verde-loura tremulante, altiva, esta sim me arrepia, emociona-me, faz-me olhar para o alto, por cima dos ombros de gigantes, desejando seguir em frente. Por certo, ainda indivíduo, sonhador. Mas em um vibrante e simbiótico espírito de corpo, numa inegável e legítima alquimia naval.

Ismael Alexandrino


Ao som de 'Hino Nacional Brasileiro'
Degustando Café Bela
Imagem: 'Cisne Branco' - Calovi

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Colônia de férias

Poesia

Há, e não tem quem negue,
Certa irritação em meu semblante.
"Donde vem?" –, perguntas.
Deste Estado, desta União.
Desta indecência democrática
Que me obriga a sentar por horas a fio
Diante de um hipócrita que tenta
Inculcar-me certa paixão.

Refuto-os! Todos!
Em silêncio, no entando sob
Pena de um sono no Bailéu.
"Disciplina e Hierarquia!" –, bradam.
"Palhaçada!" –, digo eu.
Teatro de fantoches mal treinados,
Soldadinhos de chumbo,
'João-Bobos' retardados.

Querem aprisionar o meu espírito
No que chamam "espírito de corpo".
Pois meu espírito, Senhores, rebelou-se;
Quer divagar fora do corpo
Por essas matas ao derredor,
Cansadas de serem pisadas por pés raivosos.

Desconfio, Confrades, que querem amarrar
O meu espírito numa farda passada com preciosismo.
Querem, por certo, matar minha paixão,
O encatamento que eclode em meu peito.

Não sou mais uma pessoa,
Apenas um Posto
Pelo qual alguns me cumprimentam
E a outros devo cumprimentar solenemente
E com corpo esguio.

Abandonei minha personalidade;
O genótipo tão carinhosamente
Dado por meus pais transformou-se
Em dois sapatos engraxados,
Meias limpas,
Uma calça com vincos,
Uma camisa social cheia de insígnas,
Uma camiseta alva segunda-pele,
E um chapéu cafona.
Desconhecia, enquanto simples cientista médico,
O poder destruidor dos genótipos.
Jurei, outrora, dar o melhor de mim
Para salvar vidas.
Era um sonho romântico, admito.
Um sonho nobre, sem quaisquer malícias.

Mas o novo que me tornei é forçado
A jurar dar a própria vida por uma instituição.
A vida perdera o valor!
Institucionalmente, agora sou treinado para matar.

Queria, de fato, poder matar idiossincrasias...
A fome, por exemplo, ...
As dores alheias.
Mas acabei matando
O amor, o encanto, a paixão.
E agora, Senhores, estou pronto
Para matar a vida que passa
E depois a mim.

"Qual o sentido?".
Desconheço!
"Qual a direção?"
Meia-volta, volver! – talvez.
Mas já é tarde, Senhores.
E só me resta caminhar
Para o leito de morte
Do espírito,
E do corpo.

Nuno Rossi


Ao som de 'Cálice' - Chico Buarque
Degustando Água com Biscoito Água e Sal
Imagem: 'Colônia de férias' - Stella Brasil