Crônica

Não me ensinaram a gostar de carnaval. Definitivamente, não me ensinaram. E esta não-lição, aprendi muito bem.
Deixar de gostar de carnaval pra quem mora no Brasil é uma posição impopular, eu sei. Respeito profundamente quem gosta, mas peço de todo coração, que não tentem me converter. Podem ir “brincar” à vontade nas ruas imundas, ensolaradas, mal-cheirosas, lotadas de gente de toda espécie. Mas, por favor, me deixem. De preferência, em paz!
Mesmo sozinho em casa, não me sentirei solitário. Prometo. Não precisem achar o contrário e ligarem bêbados(as) em meu celular pra eu ir pra avenida. Primeiro: não gosto de telefone, menos ainda de celular. Segundo: não irei, mesmo que haja muita insistência. Se quiserem demonstrar que se lembraram de mim em um momento de muita euforia e demasiada alegria, mande-me uma mensagem de texto. Lê-la-ei em silêncio, feliz por ser lembrado, feliz porque você está feliz no meio da muvuca e mais feliz ainda por eu não estar e, mesmo assim, ser respeitado nos meus gostos mais peculiares.
Do carnaval – sempre disse –, gosto mesmo é do feriado e do ócio que este me proporciona. Sim, eu amo o ócio. Principalmente o contemplativo e o elaborativo.
Pular, ser empurrado, quase estuprado, ouvir buzinaço no pé do ouvido, urinar no pé dos outros, ter os pés, pernas e cabeça urinadas são coisas que pouco me atraem. Aquela coisa tudo muito colorida também não me apraz. Gosto muito de um mundo colorido, mas com a suavidade das cores de um arco-íris. Aquelas cores brilhosas e cintilantes típicas de carnaval não. Acho-as piegas, de muito mau gosto, feias mesmo.
Escolas de samba de São Paulo, o corredor da Sapucaí no Rio, o tão badalado carnaval da Bahia, o Galo da Madrugada no sol calorento de Recife, os Bonecos de Olinda em Olinda...não me perguntem nada sobre isso daqui a 5 dias. Pois não terei visto nenhum deles, não saberei opinar sobre quaisquer sambas-enredos. Aliás, já opino agora, de antemão: não gostei. Ponto.
Quem gosta, no entanto, que aproveite a festa com todos os prazeres que ela puder proporcionar. Cheire muito lança-perfume como se fosse o último dia da vida, pois, após uma parada cardio-respiratória, realmente, poderá ter sido. Transe bastante, com o máximo de pessoas que conseguir; de preferência, sem camisinha, para pegar o maior número de doenças possíveis. Brigue como um marginal possuído pelo demônio. Ingira álcool até entrar em coma alcoólico, bater a cabeça no meio-fio e ficar mais seqüelado que já é para o resto da vida. Bata o carro seu carro, o do seu pai, de mais uns dois membros da família e, também, o do seu melhor amigo. Amigo é pra essas coisas. Fume todos os baseados que conseguir antes de seus pulmões entrarem em colapso e sua cabeça explodir de loucura. Discuta com a namorada, com o namorado, com o pai, com a mãe e com todos os filhos das mães que aparecerem em sua frente.
Curta bastante o carnaval e, se alguma vida lhe restar, volte pra casa.
Ismael Alexandrino
Ao som de 'All those thing' - John Pizzarelli
Degustando Torta de Abacaxi
Imagem:'Caminho' - Kelly Fernandez