Ensaio

Enquanto relia alguns conceitos musicais numa peça de Paganini, me detive em uma pausa. Na pausa não há música, mas ela ajuda a fazer a música. A vida é como música: há um compositor -- Deus -- e os diversos intérpretes -- o homem.
As claves, sejam elas de dó, sol ou fá, com suas linhas e espaços, mostram o caminho a ser seguido, a ser tocado. Algumas notas são mais demoradas, mais lentas. Outras têm o passo bem mais rápido. Ainda há aquelas que parece que se está em um feriado de domingo e, sendo assim, se escolhe o passo e gasta-se o tempo que quiser. A esta, denomina-se "fermata". Tem também o que dita a corrida -- os compassos --, bem como o entusiasmo da música, qual seja, é ditado pelos sinais que indicam expressão. Existem inúmeros símbolos e todos eles traduzem um significado específico que o bom músico entende e segue com perícia.
Na melodia da nossa vida a música é interrompida aqui e ali por "pausas". E nós, sem refletirmos, pensamos muitas vezes que a melodia terminou. Mas como é que o maestro lê a pausa? Ele continua a marcar o compasso com a mesma precisão e toma a nota seguinte com firmeza, como se não tivesse interrupção alguma. Deus segue um plano, uma partitura ao escrever a música de nossa vida. Por vezes uma música agitada, outras tantas, algo bastante largo e grazioso. As pausas, no entanto, sempre estão presentes para serem passadas ou emitidas sem que atrapalhe a melodia ou altere o tom. Mas sim que aprimore e enriqueça a canção.
Ao olharmos para cima, conforme a intimidade, Deus mesmo marcará o compasso para nós. Não nos esqueçamos, no entanto, de que "ela ajuda a fazer a música". Com os olhos Nele, vamos ferir a próxima nota com toda a clareza sem murmurarmos tristemente que "na pausa não há música".
Compor a música da nossa vida é geralmente um processo bastante lento, trabalhoso e gradual. Com paciência, Deus trabalha para nos ensinar. E Ele espera muito tempo até que aprendamos a lição. A pausa em si não dura muito, mas apenas o tempo suficiente e necessário pra que se renove o fôlego, harmonize a melodia e continue a canção. A pausa, então, apenas serve pra continuar a música.
Talvez devamos olhar melhor à nossa volta -- as notas tocadas e as que ainda estão por tocar -- e viver a vida, seguir tocando a melodia. Também, torna-se sábio parar um pouquinho e, mesmo que não se entenda a princípio a pausa, aceita-la. Pois o Compositor da nossa música é O da melhor estirpe e de maior grandeza e Ele com certeza quer que nossa música exale amor para que seja amada. Com certeza quer que tal música nos faça sonhar com dias melhores. E que, ao cantá-la, se possa sorrir e ser feliz...muito mais feliz.
Ismael Alexandrino
Ao som de 'Além do Horizonte' - Roberto Carlos
Degustando Café Quente com Leite Frio
Imagem: The Old Guitarist - Pablo Picasso